Filme · Sindicalismo

Resenha: Braços cruzados, máquinas paradas.

A História é nossa e a fazem os povos

Salvador Allende

Apresentação

É um documentário sobre a luta da classe trabalhadora, sobretudo a organização dos metalúrgicos da cidade de São Paulo. O fato central do documentário é a eleição do sindicato e as greves que ocorreram em 1978. Em Braços Cruzados, a história é contada pelos sujeitos que a fazem, ou seja, a própria classe operária mobilizada em luta. Há pouquíssima narração feita em estúdio.Imagem

Dirigido por Roberto Gervitz, formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, seus trabalhos se notabilizam pela temática social e política, também dirigiu os documentários Greve Geral (1976) e A história dos ganha-pouco (1977). Em 1986 roteirizou e dirigiu o longa-metragem, Feliz ano velho, adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva.

Desenvolvimento

O filme é iniciado com imagens do aparato de propaganda de Getúlio Vargas no período do Estado Novo, cuja administração estabeleceu uma lei trabalhista de inspiração fascista – a “Carta del Lavoro”, promulgada pelo ditador italiano Benito Mussolini em 1927 =. Essa legislação limitava a organização sindical e favorecia o peleguismo – forma de sindicalismo atrelado aos interesses patronais e do Estado, em de um sindicalismo classista que privilegiasse os interesses de seus companheiros de classe.

Logo em seguida é apresentado o depoimento de Affonso Delellis presidente do Sindicato dos Metalúrgicos em 1964, a ditadura militar que apeou João Goulart do poder, cassou a diretoria liderada por Delellis ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e nomeou o interventor Joaquim dos Santos Andrade dos Santos, vulgo, Joaquinzão, As intervenções se deram em todos os sindicatos sob a influência dos comunistas e trabalhistas. Desde 1968, não se escutava falar em greves. Sindicalistas foram presos, torturados e mortos. A partir de então, nos sindicatos imperavam os pelegos nomeados pelo governo ditatorial.

Entre os metalúrgicos de São Paulo havia um grupo de trabalhadores ligados à Oposição Sindical Metalúrgica (OSM-SP), que estabelecia comissões de trabalhadores por fábricas. A OSM-SP era composta por militantes ligados a Pastoral Operária de São Paulo (esquerda católica, vinculada a Teologia da Libertação) e vários agrupamentos de esquerda – Ação Popular (AP), Politica Operaria (POLOP) e outras organizações referenciadas no trotskismo – propunha um programa que defendia o desmonte da estrutura sindical vigente e a organização dos trabalhadores pela base, através dos Grupos e Comissões de Fábrica.

Em 1978, contra a inoperância da diretoria pelega do sindicato emerge as comissões de fabrica na luta contra as péssimas condições de trabalho e o arrocho salarial imposto por patrões e governo. A OSM-SP consegue mobilizar uma considerável base de trabalhadores e juntamente com o movimento espontâneo dos operários, consegue articular uma das mais importantes greves do país. Contestando os patrões, o governo, e a diretoria pelega do sindicato, os metalúrgicos de São Paulo deixavam as máquinas paradas e ficavam de braços cruzados até que suas reivindicações fossem atendidas, como as apresentadas no documentário que exigia 21% de aumento na Massey Fergusson, multinacional canadense, ou os 25% exigidos pelos trabalhadores da Philco.

A direção pelega atuou em consonância com os patrões e a todo o momento tenta desmobilizar o movimento dos trabalhadores metalúrgicos, entretanto os trabalhadores e as comissões de fábricas não arredaram pé em suas reivindicações. A partir do impasse a negociação é levada a Delegação Regional do Trabalho (DRT), novamente os trabalhadores ficam isolados, o delegado do trabalho tenta constranger os trabalhadores a aceitarem a proposta dos patrões, demonstrando explicitamente a aliança entre o Estado, os patrões e a diretoria pelega do sindicato.

No mesmo ano de 1978, a OSM-SP apresentou uma chapa a eleição da diretoria do sindicato (Chapa 3), concorreram mais outras duas chapas. A chapa 1, de situação, era liderada por Joaquinzão e a chapa 2, liderado por Candido Hilário (Bigode) era ligada a militantes do Partido Comunista Brasileiro.

A eleição nos metalúrgicos de São Paulo de 1978 em meio as greves nas fábricas acabou por jogar na mesma arena, as comissões de fábrica, a OSM-SP e a diretoria pelega do sindicato. A mobilização grevista e as eleições se combinaram na luta contra as precárias condições de trabalho e o arrocho salarial, evidenciando a completa desmoralização da diretoria do sindicato, já que está não defendia os trabalhadores e estava em conluio com o empresariado paulista.

A apuração das eleições demonstrou todo tipo de fraude, urnas sem lacres ou com lacres falsos, falta de lista de votantes, ausência de comprovação de identidade dos votantes, a não permissão de fiscalização das urnas, etc. A oposição imediatamente pediu a anulação das eleições, no entanto no primeiro momento o apurador não se rendeu as evidencias. Mas ao longo da apuração as fraudes ficaram cada vez mais claras e o representante da Diretoria Regional do Trabalho anulou as eleições. A euforia da oposição durou pouco, pois o então Ministro do Trabalho interveio e acabou por validar e eleição, dando posse a diretoria pelega do sindicato, comandada por Joaquinzão.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo era muito importante para que o governo e os patrões permitissem que este caísse nas mãos da esquerda sindical que se opunha aos militares, avalizar a continuidade dos pelegos, mesmo que desmoralizados perante a classe trabalhadora, garantiria na visão dos governantes e dos agentes do capital a desmobilização do operariado, tese que se mostrou equivocada, pois em 1979 os trabalhadores decretaram greve geral dos metalúrgicos de São Paulo.

Conclusão

 

O documentário (dando voz aos trabalhadores, o que expressa perfeitamente a ideologia da OSM-SP) conta a história das greves de 1978 (o nome da obra, Braços cruzados, máquinas paradas é inspirado no slogan de um boletim de greve da época) que juntamente com as mobilizações iniciadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos da Região do ABC paulista iriam alterar não só o sindicalismo brasileiro, mas os rumo da política nacional, já que estes acontecimentos colaboraram para o surgimento de um partido de esquerda de massas, o Partido dos Trabalhadores e a ascensão e projeção da maior liderança sindical do país, Luis Inácio Lula da Silva, que passado 25 anos das greves de 1978, chegou a Presidência da Republica.

A Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, a organização das Comissões de Fábrica, a defesa do fim da estrutura arcaica do sindicalismo que servia de instrumento de dominação burguesa, suas táticas de comunicação e o espírito de luta revolucionário mostrado naqueles dias, nos ofereceu uma nova maneira de se fazer sindicalismo no Brasil.

Junto com os metalúrgicos do ABC (mesmo com importantes diferenças de concepção política) e diversos outros sindicatos e oposições sindicais de todo o país a OSM-SP auxiliaria a impulsionar a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), atualmente a maior central sindical da América Latina. Sua ideologia e pratica ainda hoje influenciam o sindicalismo brasileiro, sua luta entrou para a história como uma das mais admiráveis experiências da classe operária brasileira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s