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O Governo Jacobo Arbenz na Guatemala, um exemplo do intervencionismo dos EUA na América Central na década de 1950

A partir do final da década de 1950, no contexto da Guerra Fria, observou-se na América Latina uma crescente ampliação das intervenções do governo dos EUA na política dos países latino americanos. Preocupados com a crescente influencia da esquerda junto aos governos nacionalistas da região, o Governo dos EUA sustentou diversos golpes militares que visavam afastar a ameaça comunista na região, nesse contexto a Agência Central de Inteligência (CIA), teve papel central ao servir como órgão de apoio do governo dos EUA aos setores da elite reacionária da América Latina.

Já em 1954, a CIA protagonizou o golpe de Estado que derrubou o governo progressista de Jacobo Arbenz, na Guatemala, militar nacionalista apoiado pelos comunistas do Partido Guatemalteco dos Trabalhadores1 (PGT). Arbenz chegou ao poder ao vencer as eleições de 1950, quando teve cerca de 65% dos votos.

Historicamente subordinado aos interesses do governo e das empresas estadunidenses, sobretudo a United Company Fruit, multinacional que atuava na produção e comercio de frutas e que exercia grande poder de influencia nos países da América Central com o apoio das oligarquias nativas, dominavam a politica na região, daí a origem da famosa expressão “Republica das Bananas”, para nomear os países centro-americanos.

Já em 1944, a Guatemala após a Revolução de Outubro que deu fim a ditadura do General Ubico passa por um processo de transformações democráticas e anti-imperialistas, segundo Rampirnase2:

Era uma revolução nacionalista, porque reivindicava para a Guatemala e seu povo a riqueza do país, a qual era subtraída por alguns monopólios estadunidenses, especialmente a United Fruit Company (UFCO), a International Railways of Central América (IRCA) e a Companhia Elétrica da Guatemala. A revolução tentava sair do esquema banana republic e das decisões econômicas de Boston[sede da UFC] que afetavam a maioria da população guatemalteca”.

Ao tomar posse na presidência, Arbenz, promete romper o modelo de dependência econômica, pregando a modernização do capitalismo guatemalteco, processo este que já havia sido iniciado no governo Arévalo, coube ao novo governo aprofundar as transformações, realizando a reforma agraria, a nacionalização das riquezas naturais, expropriação das terras de empresas estadunidenses, entre outras medidas.

A United Fruit Company detinha cerca de 7% do total de terras agricultáveis do país que estavam ociosas, e foi o maior alvo das desapropriações do governo, a multinacional tinha estreitas relações com o governo Eisenhower e, portanto a resposta de Washington veio imediatamente, e começa a ser articulado pela UFC e a CIA um plano para desestabilizar o governo, usando o artificio de classificar o governo como fantoche do comunismo internacional e da URSS.

Se valendo de artifícios como esse os EUA consegue isolar o governo guatemalteco dos demais países da América Central. A partir desse momento um exercito de mercenários treinados pela CIA começa a articular o golpe – foi a primeira intervenção direta da CIA na América Latina – invadindo o país através da fronteira com Honduras sustenta o inicio do golpe de estado, a resistencia foi inócua e logo setores do exercito que supostamente apoiavam lealmente o governo se aliaram aos imperialistas e a oligarquia local, em 27 de junho de 1954 o governo constitucional é derrubado e sob a liderança do Coronel Castillo Armas é instituida uma brutal ditadura que segundo estimativas foi responsavel por 200 mil mortes e desaparecimentos políticos, esse novo governo golpista pró imperialismo, como não poderia deixar de ser, logo foi reconhecido pelos Estados Unidos, de acordo com documento do PGT de 19553:

O governo dos EUA tentou disfarçar em vão os fatos e ocultar suas responsabilidades de organizador da intervenção, atribuindo ao povo guatemalteco a derrubada do regime democrático eleito por este mesmo povo. A verdade que nosso povo conhece, e cada dia fica mais evidente, é que o golpe contra o legitimo governo de Arbenz é obra dos monopólios ianques, como a United Fruit Company; assim é obra dos EUA”.

Possivelmente, Arbenz e o PGT poderiam conter a ofensiva imperialista, entretanto cometeram erros que inviabilizaram a resistência, como a de confiar demasiadamente nos setores da burguesia nacional, em detrimento da mobilização popular, fazendo uma autocritica o PGT declara no documento de 1955:

O PGT não estimou corretamente a pouca capacidade de resistência a burguesia nacional e nem sempre levou em conta seu caráter conciliador perante o imperialismo e as classe reacionárias; por isso, ele se iludiu com relação ao patriotismo, à lealdade e à firmeza da burguesia nacional em face das investidas do imperialismo norte-americano”.

Pouco antes do Golpe, o trotskista Ismael Frias criticando o imobilismo do PGT diante a postura moderada da burguesia nacional e o exercito, frente a ameaça imperialista afirma4:

A única garantia eficaz contra as insurreições reacionárias é democratizar o exercito e armar o povo. Deve-se constituir comitês de classes e soldados para a depuração dos oficiais antidemocráticos e proceder a eleição dos oficiais pela tropa. É preciso armar os operários e trabalhadores do campo, organizando-os em milicias, sob a direção exclusiva dos sindicatos”

A experiencia de Arbenz na Guatemala foi positiva na medida que apontou uma série de caminhos que alguns anos mais tarde inspirarão diversos governos democráticos na América do Sul e Central, no entanto os erros cometidos, sobretudo em relação a exacerbada confiança nos setores democráticos burgueses e no exército e o aspecto geopolítico do momento despertou a contraofensiva dos EUA na sua estratégia de impedir uma possível onda vermelha no continente americano, impedindo assim, um processo de mudanças importantes, que poderia romper com o atraso econômico, politico e social na região.

1A Aliança com setores da burguesia nacional expressa a linha politica adotada pelos Partidos Comunistas ortodoxos

2RAMPINELLI, W.J. O primeiro grande êxito da C.I.A. na América Latina

3Guatemala: a autocrítica dos comunistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais.

4FRIAS, Ismael. Guatemala: a posição dos trotskistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais

 

 

 

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8 comentários em “O Governo Jacobo Arbenz na Guatemala, um exemplo do intervencionismo dos EUA na América Central na década de 1950

  1. Não entendo as críticas apresentadas nesse artigo.
    Eu sou Africano. E vi no meu País como aconteceu. Por estudos sei bem que foi do mesmo jeito na grande maioria dos Paises (africanos e Latino Americanos).
    Viviamos a Guerra fria, e o mundo vivia um cenário revolucionario… Nasciam Países quase todos os meses… Nesses Países havia os movimentos revolucionários, com suas ideologias, seus apoiantes….
    Os EUA apoiaram? A URSS também apoiou… E cada um fez o que lhe interessava.
    Naquela altura houve inumeros golpes de estado gerenciados pela CIA ou pela KGB, como já disse, conforme os interesses. Mas eles nunca agiam sozinhos… Havia sempre apoio da população dos proprios países…
    Na Guatemala não foi diferente. O Presidente Jacobo teve apoio de 65% da população e o golpe foi dado por guatemalos (sim com a ajuda de mercenarios norte americanos, e daii?). Se não fossem eles, seriam outros…
    Os EUA priorizaram seus interesses e agiram como qualquer outra pessoa no mesmo lugar.
    Agora vocês criam estes artigos, pra espalhar ao mundo que os EUA são isso e são aquilo… Acordem, ninguém no lugar de primeira potencia mundial faria menos. Alguns até fariam pior.

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    1. Existe algo basilar nas Relações Internacionais chamado autodeterminação dos povos, como vc mesmo apontou o Governo Arbenz era aprovado pela grande maioria dos guatemaltecos. Não cabe a outros países se imiscuir a ponto de escolher o tipo de governo que se deve adotar em qualquer país, seja ele os EUA, a ex URSS ou qualquer outro.

      Grato pelo comentário.

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    2. Você diz que é africano. Muito bem. Deixo-lhe aqui alguns excertos de uma carta endereçada a George W. Bush (conhece?) do biólogo e escritor Mia Couto, um moçambicano, conhece?, sobre a problemática das intervenções da CIA/EUA em países soberanos.
      «Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com a ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça, o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídrico;
      Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi pelos vossos agentes (da CIA) conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em Áfica. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;

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  2. «Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bambardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam;
    Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bonardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)».

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  3. «O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe ( a Bush filho) no final do ano passado (2002?) uma carta intitulada «Porque é que o mundo odeia os EUA?». O bispo da Igeja Católica da Florida é um ex-combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: «O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, sr. Presidente! Somos alvo dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura,a escravidão e a exploração humana.

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  4. «Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas (e acrescento eu: fez e faz). Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejoso de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais?.E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais.»
    Quer mais? Acho que já escrevi bastante.
    Deve ler, permita-me aconselhá-lo, obras de um autor americano, entre outros, que pertence à «intelligentzia» daquele país, a saber: Noam Chomsky

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