Descolonização da Africa · Nacionalismo Árabe · Socialismo Árabe

O Socialismo Árabe: As ideologias do processo de descolonização do norte da África.

No processo de descolonização do Norte da África, três ideologias destacaram-se: o islã, o nacionalismo e o socialismo árabe. Suas influências e o seu impacto respectivos variaram de acordo com o tempo e o espaço, conforme a evolução da situação social e política. Entretanto, pode-se afirmar que a ideologia dominante na região durante a fase decisiva da luta anticolonial era o nacionalismo árabe, mais ou menos temperado, em cada país, pelo islã e/ou pelo socialismo. Neste texto vamos abordar o socialismo árabe.

A tradição socialista há tempos era conhecida nos países árabes da África do Norte, porém, circunscrito ao ambiente intelectual. No Egito e Sudão, partidos de orientação comunista eram ilegais, esses partidos em nenhum momento conseguir ter um papel de protagonista no movimento de descolonização. Esse fenômeno se dá sobretudo devido ao subdesenvolvimento industrial, a influencia do tradicionalismo islâmico e a falta de uma interpretação que incorporasse as especificidades socioeconômicas e culturais da região, partidos marxistas surgiram em sua grande maioria influenciados pela herança europeia na região, o que explica a falta de adaptação as condições locais. Entretanto, o sucesso da União Soviética na Segunda Guerra e sua transformação de monarquia feudal atrasada em uma superpotência industrial, chamou a atenção de importantes setores do nacionalismo árabe. A partir da década de 1950, surge o socialismo árabe, adotando alguns preceitos socioeconômicos do marxismo e renegando a visão internacionalista proletária e ateia do marxismo. O termo socialismo árabe foi cunhado por Michel Aflaq, político sírio, fundador do Partido Socialista Árabe Baath1, fundado em 1947, reivindicava-se como partido pan-árabe, laico e radical socialista e tinha como lema Unidade, Liberdade e Socialismo2.

O socialismo árabe, não rejeita o capitalismo como modo de produção, apenas condena o liberalismo ou o laisser faire, não faz uma interpretação classista da sociedade árabe, o socialismo seria um modo de organizar e alcançar o progresso através de um protagonismo econômico do governo, através das empresas públicas. O socialismo árabe, adota a ideia de partido único, porém, renega a ditadura do proletariado, preconizando a assimilação de classes e a unidade árabe, se aproximando dessa forma do nasserismo3.

Algumas experiencias forjadas na tradição do socialismo árabe, exerceram o poder de fato, na Argélia sob a direção da Frente de Libertação Nacional (FLN), um socialismo islâmico, forjado nas intensas lutas de libertação, conjugou valores do nacionalismo, autogestão e regime de partido único, reinvindicava o socialismo e o islã como religião de Estado de forma concomitante. Na Tunísia um socialismo cooperativista, rejeitava os efeitos de uma revolução através da luta de classes, a revolução estaria muito mais no espirito do que na estrutura. Na Líbia, depois de derrubar a monarquia pró ocidente em 1969 e instaurar a República Socialista Árabe fundamentada no pan-arabismo e nas nacionalizações das riquezas naturais (petróleo), o Coronel Kadafi apregoa em seu Livro Verde a aniquilação dos ideais liberais, apontando o islamismo como alternativa aos males, tanto do capitalismo como do marxismo. Kadafi afirma que a democracia participativa é um circo e a utilização de plebiscitos e referendos uma fraude, pois o povo não poderia empreender sua verdadeira opinião, apenas escolher entre “sim” e “não”, a verdadeira democracia seria exercida através dos comitês e conselhos populares.

Conclusão

Deste modo, entendemos que os valores sistematizados e defendidos pelos socialistas árabes em síntese, colocavam-se como instrumento do nacionalismo árabe, Michel Aflaq e seus adeptos do Partido Baath, afirmava categoricamente que o socialismo árabe era um apêndice do nacionalismo árabe.

Nossa hipótese é que esse tipo de concepção é comum aos movimentos de libertação nacional da África e da Ásia, uma maneira de demonstrar independência em relação ao imperialismo ocidental, uma espécie de versão do etapismo stalinista com sinais trocados, pois o socialismo seria uma etapa para que se pudesse atingir os objetivos nacionalistas, como diz Aflaq4

“Para nós, o socialismo é uma ferramenta referente às nossas necessidades nacionais, à nossa situação nacional e, portanto, não pode consistir em uma filosofia ou perspectiva fundamental a dominar nossa vida […]. O nacionalismo árabe percebe que o socialismo é o melhor meio de conceder novamente impulso vital ao seu nacionalismo e á sua nação”.

Marcio Moraes do Nascimento

1Baath em árabe significa “ressurreição”

2A “unidade” se refere à unidade árabe, a “liberdade”enfatiza a libertação do controle do imperialismo, e o “socialismo” se refere ao socialismo árabe e não ao socialismo marxista.

3Ideologia política nacionalista árabe baseada nos pensamentos do presidente egipício Gamal Abdel Nasser .

4Arab Socialism: A Documentary Study, S.A. Hanna e G. H. Gardner, 1969:

Licença Creative Commons
A obra O Socialismo Árabe: As ideologias do processo de descolonização do norte da África. de NASCIMENTO, Marcio Moraes foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não-Comercial – Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Brasil.

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2 comentários em “O Socialismo Árabe: As ideologias do processo de descolonização do norte da África.

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