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Teoria Crítica e Hegemonia nas Relações Internacionais

Por Marcio Moraes do Nascimento

Resumo: Esse artigo é uma tentativa de servir como introdução à uma analise da Teoria Critica das Relações Internacionais, sobretudo a vertente desenvolvida por Robert Cox, a partir dos escritos do intelectual italiano Antonio Gramsci.


I – Teoria Crítica e Hegemonia nas Relações Internacionais

A teoria critica surge como alternativa as teorias positivistas (realista, neorealista, liberalista). Diferentemente dos realistas e neo-realistas os formuladores da Teoria Crítica, como Mark Rupert afirma: ” a própria ontologia é radicalizada; não mais vista como a priori, isto é, como anterior e constitutiva da realidade que podemos conhecer, passa a ser, em vez disso, um produto social em andamento históricamente concreto e contestavel”.

Uma clara contraposição ao compromisso ahistórico e abstrato das teorias ortodoxas das relações internacionais, desse modo, a Teoria Crítica contribui para a ampliação do campo de estudo das relações internacionais, tradicionalmente dominada pela questão da segurança. Para os estudiosos desta vertente de pensamento, teoria e prática devem estar juntas, ou seja, buscar modos que além de explicar os acontecimentos, busquem uma transformação da ordem social vigente. Robert Cox, um dos principais expoentes da teoria crítica, afirma que toda teoria serve a um propósito de dominação[1].

Cox contextualiza três conceitos básicos em sua teoria das relações internacionais: a estrutura vertical das RIs, relação Estado e Sociedade Civil, e a dinâmica do processo produtivo.

Para explicar a estrutura vertical de poder nas relações internacionais, Cox, utiliza o conceito de hegemonia formulada pelo intelectual italiano, Antônio Gramsci, cabe salientar que esse conceito de hegemonia difere do utilizado pelas teorias ortodoxas das relações internacionais, segundo Augelli e Murphy[2](2007)

A hegemonia de Gramsci é a capacidade de que um grupo social possui para exercer uma função de direção política e moral na sociedade”

Transpondo esse conceito para a política mundial, seria a capacidade de um Estado, de convencer outros Estados a seguir um conjunto de idéias e instituições preconizadas por esse Estado dirigente.

De acordo com Cox[3], Gramsci não diminuía o papel do Estado, classificando-o como a unidade básica das Relações Internacionais, pois é o lugar onde os conflitos de ordem social acontecem, ou seja é o local onde a hegemonia das classes sociais são consolidadas, porém o Estado que é a unidade básica das Relações Internacionais é o Estado ampliado, deixando de lado a concepção reducionista de Estado como aparelho burocrático-militar.

Os Estados que de certo modo, assumem uma vocação hegemônica, são aqueles que passaram por revoluções socioeconômicas completas (França, Estados Unidos, URSS) e que tem capacidade de exportar os valores de suas transformações para a periferia do Sistema Internacional.

Uma hegemonia mundial nada mais é do que a expansão de uma hegemonia nacional estabelecida por determinada classe social para o exterior, desse modo o bloco hegemônico necessariamente deve desempenhar papel central no modo de produção em vigor[4].

Os valores morais propugnados por essa hegemonia interna passam a ser universais no sistema internacional, tornando-se o modelo a ser seguido pelos países periféricos, mesmo que na periferia esta assuma notadamente um caráter contraditório, dado que estes paises passam por processos de transformações incompletas ou tardias.

Ao coopetar as elites dos países periféricos e universalizar um conjunto de normas, as organismos internacionais legitima ideologicamente as regras propugnadas pela hegemonia mundial, geralmente sendo uma ampliação para a escala mundial dos valores originados no Estado Nação que estabelece o periodo hegemonco, portanto, para Cox:

” a hegemonia no plano internacional não é apenas uma ordem entre Estados. É uma ordem no interior de uma economia mundial com um modo de produção dominante que penetra todos os países e se vincula a outros modos de produção subordinados. É também um complexo de relações sociais internacionais que une as classes sociais de diversos países. A hegemonia mundial pode ser definida como uma estrutura social, uma estrutura economica e uma estrutura politica, e não pode ser apenas uma dessas  … a hegemonia mundial se expressa em normas, instituições e mecanismos universais que estabelecem regras gerais de comportamento para os Estados e para as forças da sociedade civil que atuam além das fronteiras nacionais – regras que apóiam o modo de produção dominante”.



[1] Discussão feita a partir de: MESSARI, Nizar & NOGUEIRA, João Pontes. Teoria das Relações Internacionais: Correntes e debates. Rio de Janeiro

[2] Augelli e Murphy. Gramsci e as relações internacionais: Uma perspectiva geral com exemplos da politica recente dos Estados Unidos no terceiro mundo, p. 205

[3] Cox, Robert W. Gramsci, Hegemonia e Relações Internacionais: Um ensaio sobre o método In: Gill, Stephen (org) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2007, p. 113

[4] Gramsci, Antonio. Cadernos do Carcere.

Rupert, Mark. Alienação, capitalismo e sistemainter-Estados: rumo a uma crítica marxista/gramsciana. In: : Gill, Stephen (org) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais, Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2007, p. 126

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