Futebol

Sobre o Corinthians, Sócrates e porque não um pouco de política

“O Corinthians é o time do povo. E é o povo quem vai fazer o time”

Miguel Bataglia
1° Presidente do Corinthians

Eu cá com meus botões há poucos dias estava refletindo e me ocorreu que nunca tinha escrito um texto sobre futebol, sobre o Corinthians, não é um absurdo? Particularmente achei uma tremenda mancada, explico o motivo. O amor por esse esporte normalmente é o primeiro sentimento dessa espécie despertado no ser humano, com seus 5 anos a criança muito antes do despertar de outras paixões, já aprende a amar um time de futebol, e como diz sabiamente um amigo, o amor para mim é uma instância superior, pois bem, o amor pelo futebol é incondicional, não adianta os Dualibs da vida acharcar o clube e muito menos o perna de pau do Souza perder trocentos gols de baixo da trave, certamente no outro final de semana lá estamos que nem um alucinado torcendo pela vitória do Corinthians.

Aproveitando que esse ano é centenário do Corinthians, pretendo escrever sobre alguns personagens marcantes que passaram pelo clube, o meu escolhido pra começar esta série é o Sócrates.

O Sócrates marcou época no Timão, entre 1978 e 1984, não só pelos gols, o estilo refinado de jogar, mas também por ser uma espécie de intelectual orgânico dos gramados, ao lado de jogadores como Wladimir, Eduardo Amorim, Zenon, Casagrande (pretendo escrever um texto sobre o Casão), o nosso personagem foi um dos líderes da Democracia Corinthiana movimento que agitou o meio futebolístico no inicio da década de 1980. Na Democracia Corinthiana não havia as famigeradas concentrações e tudo era decidido em conjunto entre a diretoria, jogadores e funcionários, recentemente no programa Cartão Verde da TV Cultura, Sócrates revelou qual o caráter do movimento, ao dizer que o craque e o roupeiro do time tinham o mesmo peso nas decisões do grupo, não é fantástico? é a radicalização da democracia participativa.

O legal da Democracia Corinthiana foi que ela não ficou circunscrita ao mundo futebolístico, estávamos ainda sob os “auspícios” da ditadura militar, e os jogadores corinthianos encamparam as Diretas Já (naquela altura muitos desses jogadores já tinham ligação com o PT), lembro de um vídeo onde Sócrates ao lado de grandes figuras da política nacional discursa para uma multidão em um comício, coisa que hoje é inimaginável nesse mundo do futebol globalizado e dos craques descartáveis.

Nada mais justo, representantes do clube fundado por operários ao lado das forças populares e progressistas do país contra o arbítrio, daí tiro uma conclusão: ser de esquerda e ser corinthiano é um exercício de coerência.

Voltando a parte futebolística, o nosso Dr. Sócrates era um craque de futebol que dificilmente veremos igual, sempre com um passe perfeito, sua marca registrada era o toque de calcanhar que surpreendia os brucutus que tentavam parar sua genialidade na pancada, seu arremate era preciso. Meu tio que é são-paulino, sempre resmunga quando passa algum lance na TV: “Esse Sócrates era triste, quando pegava na bola era um terror”, no São Paulo jogou o Sócrates genérico, o Raí, um dos irmãos do craque, mas mesmo assim sempre vejo uma ponta de magoa no meu tio, pois o Doutor nunca jogou no São Paulo (Ele quase foi jogador do time do Morumbi, porém, Vicente Matheus outra celebre personagem da história do Corinthians, atravessou a negociação e o trouxe para o Parque São Jorge), meu tio também tem uma inveja por causa da Democracia Corinthiana, já que o São Paulo é identificado com a elite branca paulista.

Cresci vendo vídeo de gols do Sócrates, passava muito no Grandes Momentos do Esporte, programa da TV Cultura (era transmitido aos sábados com muitos lances do futebol dos anos 1970 e 1980) prestava bastante atenção, pois sempre procurava imita-lo quando jogava num dos times de futebol do bairro, gostava de jogar com a camisa 8, sempre que fazia meus golzinhos procurava comemorar da mesma forma que o Doutor, com o braço direito estendido e o punho cerrado e adorava quando a molecada me chamava de Magrão que era um dos apelidos do grande ídolo. Vários gols do Sócrates são verdadeiras obras de artes, mas os que me chamaram mais atenção foi o gol que ele fez contra o São Paulo na final do Paulista de 1983 (passe primoroso do Zenon) e o Gol contra a Itália na Copa de 1982 (esse gol foi o ultimo de um jogador do Corinthians com a camisa da seleção brasileira em Copas do Mundo, o Tevez marcou em 2006, mas pela Argentina), falem o que quiserem, mas acho esse gol o mais bonito da histórias das Copas, não tem pra Maradona em 1986 ou Pelé em 1958, o gol mais bonito é o do Doutor, esse gol é um primor de jogo coletivo e como sempre acho que o coletivo deve estar acima do individual, está explicada minha preferência.

Aqui acabo minha homenagem a esse jogador que ao lado de poucos, merece a alcunha de jogador cerebral, no mesmo Cartão Verde, Sócrates disse que sua maior emoção foi cantar o hino nacional brasileiro como capitão da seleção na estreia da Copa de 1982, e emenda: “Ali eu não representava um time, e sim o meu povo”, não poderíamos esperar algo diferente de quem carrega o Brasileiro no próprio nome.

Valeu Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira!!!

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