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Gramsci e os Movimentos Sociais

Antonio Gramsci1, assim como Marx, concebia o capitalismo como um modo de produção essencialmente mundializante, argumentando que há sempre um recorte entre o local, o nacional e o mundial. Para Gramsci a internacionalização é articulada e estruturada a partir de dois enfoques interdependentes e interdeterminantes: o fato em si e a visão do fato. O segundo aspecto é o mais relevante, pois esta visão de mundo é que irá determinar a universalidade e a abrangência dessa concepção (de universalidade) de mundo na ordem mundial.

Gramsci assinala um papel central da cultura nesse processo de globalização, o que fica claro com o emprego do conceito de hegemonia.

A hegemonia consiste em uma visão de mundo, sistemática e totalizante, que visa dirigir e abranger todas as classes sociais2. É construída uma visão de dominação que impulsionada pelos meios advindos da industria cultural, tendem a mascarar o conteúdo classista e buscar uma neutralidade que não existe nos acontecimentos.

A questão central em Gramsci se refere à capacidade dos grupos sociais, por meios dos intelectuais, proporem concepções que embora sejam a leitura de uma classe social, possam se tornar universais, superando o particular e o tornando global, permitindo assim o exercício da hegemonia, conforme Gruppi3: “A hegemonia é isso: capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe”4.

Ressalta-se a concepção de poder fundamentado na capacidade de um determinado grupo social, dirigir por meio de um consenso, outro grupo social antagônico, afirmando uma vontade universal a qual o objetivo é implantar um modelo econômico-politico e cultural. Nesse sentido, a classe dominada acabaria por assumir esse discurso que não lhe pertence, que não é próprio da sua classe.

Entretanto para Gramsci, há a possibilidade de uma transformação social, uma reforma ideológico-cultural conduzida pelas classes populares. Este projeto teria como um dos atores principais os intelectuais, que seriam responsáveis pela formulação e publicidade das novas idéias que reformariam a sociedade, criando uma contra-hegemonia. Para Gramsci: “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica e se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais”5.

Será ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cultural de uma nação sobre as outras? Ou já estará o mundo de tal modo unificado na sua estrutura econômico-social, que um país, ainda que podendo ter cronologicamente a iniciativa de uma inovação, não pode, porém, conservar o monopólio político e, portanto servir-se de tal monopólio como base de hegemonia? Qual significado que ainda pode ter hoje o nacionalismo? Não será ele possível apenas como imperialismo econômico-financeiro e não mais como primado civil ou hegemonia político intelectual?”6.

Nesta afirmação, Gramsci põe em duvida a capacidade do Estado-Nação em um mundo onde o capitalismo se unifica internacionalmente tanto na seara política como na cultural, relativizando, portanto, o papel do Estado-Nação no cenário da correlação de forças do sistema internacional, Assim Gramsci minimiza o conceito de nação e de imperialismo, embora não os descarte em sua teoria.

Como bom marxista, Gramsci considerava o capital “um organismo em continuo movimento, capaz de absorver toda a sociedade, assimilado-a ao seu nível cultural e econômico”, portanto o capitalismo é apátrida, para ele não há fronteiras, nem particularidades culturais.

A globalização altera o espaço e a correlação de forças nas relações internacionais, com a globalização há uma redefinição do que é soberania e um novo alcance das estruturas de poder que contemplam as transnacionais e as organizações internacionais.

É preciso levar em consideração que com as relações internas de um Estado-Nação se entrelaçam as relações internacionais, criando novas combinações originais, e historicamente concretas. Uma ideologia, nascida em um país mais desenvolvido, difunde-se em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combinações”7

Daí podemos concluir8 que muitos movimentos surgidos no âmbito nacional, seriam resultados, ou melhor, construídos a partir de uma lógica internacionalista, sendo produto da luta dos movimentos em nível mundial, pois muitos dos interesses estrangeiros são caracterizados como nacionais para que estes possam ser legitimados localmente.

Em Gramsci, já é concebido o alcance transnacional do capitalismo e que os atores das relações internacionais não estão mais presente apenas num ambiente local, mas interconectam se em ambientes diferentes, condicionando o local (o macro determinando o micro, o mundial determinando o nacional).

Para o autor, as transformações sociais passam pelo advento de novos valores culturais. Uma contra-hegemonia, conduzida pelos intelectuais e pelos movimentos populares, dariam vazão a uma nova visão de mundo e coesão social, permitindo a ação de um bloco histórico que se contraponha ao pensamento hegemônico.

Gramsci atento ao sentido mundializador das questões culturais, alerta para o sentido progressivo de substituição das visões localistas e nacionalistas por outras de cunho cosmopolita, de um poder substancialmente maior, pois essas manifestações estão afinadas com concepções universais e de transformação coletiva do mundo.

Isto é valido não somente para as manifestações de caráter secular, como as de caráter tradicional, como as manifestações religiosas, pois as grandes religiões como o cristianismo e o islamismo superam a visão particularista das religiões nacionais, pois as linguagens mais simples acabam por serem sufocadas pelas abordagens mais complexas.

A tese cosmopolita9 de Gramsci é considerada de suma importância para sua teoria de cultura, visa informar aos lideres dos movimentos internacionalistas que qualquer posicionamento só tem chance de obtenção de sucesso, se forem levados em conta às necessidades da vida e as exigências da cultura dos povos, as lutas nacionais passam a estar submissas a problemática cultural, e esta não pode estar subordinada apenas a política e a luta de classes, preconizando a superação do afastamento entre cultura e povo, entre intelectuais e a massa.

O debate sobre a globalização, lançado pelos movimentos sociais, apresenta hoje o que Gramsci chama de “guerra de posição”10 um embate teórico que afirme e forme gerações, que aprofundem ou desafiem concepções de mundo, é portanto um embate cultural, que visa uma internalização de uma hegemonia, pela capacidade de buscar alternativas e experiências que busquem o convencimento ou não de novas maneiras de enxergar o mundo.

Dentro dos paradigmas gramscianos e refletindo a sociedade atual concebemos que uma ferramenta interessante de criação de uma contra-hegemonia, precisaria, sobretudo, pensar uma estratégia para os aparelhos tecnológicos e de comunicação, como já é praticado por diversos movimentos sociais espalhados pelo mundo.

Na sociedade moderna, então, não é suficiente ocupar fábricas ou entrar em confronto com o Estado. O que também deve ser contestado é toda a área da “cultura”, definida em seu sentido mais amplo, mais corriqueiro. O poder da classe dominante é espiritual assim como material, e qualquer “contra hegemonia” deve levar sua campanha política até esse domínio, até agora negligenciado, de valores e costumes, hábitos discursivos e práticas rituais”.11.

Portanto os movimentos sociais em seu campo de atuação poderão se utilizar de meios de comunicação de massa, que venham criar mecanismos de contraposição às concepções hegemônicas, podendo assim construir novos saberes e visões políticas contra hegemônicas, e difundi-las à opinião publica mundial. Nesse sentido o intelectual orgânico preconizado por Gramsci seria uma espécie de comunicador ativista dos movimentos sociais, se contrapondo culturalmente aos intelectuais do modelo dominante da globalização neoliberal.

Os meios de comunicação podem produzir, em termos quantitativos e qualitativos, um universo cultural e informativo superior àquele elaborado de forma natural, espontânea e artesanal. Não obstante, esse processo precisa ser qualificado de modo consciente, como ação das instâncias políticas e técnicas, sob hegemonia da ideologia revolucionária e articulada dialeticamente com os interesses e consciência das massas. Através dos modernos meios de comunicação radicaliza-se a possibilidade das transformações na consciência e na cultura. Portanto, aumenta a possibilidade do sujeito coletivo agir diretamente sobre si mesmo, a partir de suas diferenças internas, contradições e potencialidades daí decorrentes”.12

Nesse aspecto ganha centralidade o já apontado e clássico exemplo do Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e sua forte estratégia de usar a Internet como meio de divulgar seu ideário e suas ações, permitindo assim a construção de apoios e alianças na sociedade civil organizada.

Outra questão que apresenta muita relação com as abordagens gramscianas de criação de uma nova hegemonia das classes subalternas, transparece no exemplo do MST, que está formando seus próprios intelectuais.

O movimento dos Sem Terra interage aproximadamente com 1500 escolas em seus assentamentos e seus acampamentos, e idealizou a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) 13 no município de Guararema, interior de São Paulo, tomando para si a educação dos seus militantes e criando novos conceitos pedagógicos, de formação política e cultural.

Portanto no horizonte da globalização é preciso criar novas formas de educação em contraponto a educação tradicional que sofre grande influencia do pensamento dominante neoliberal, pois muitas dessas políticas educacionais são financiadas com dinheiro de organismos como o Banco Mundial, nesse sentido os movimentos sociais apontam a necessidade de barrar a implantação de ações que visam mercantilizar a educação, como propõem os diversos Tratados de Liberalização Comercial (TLC), a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC).

1 Mello, Alex Fiúza de. Mundialização e política em Gramsci, cap. 2, pag. 19.

2 Mello, Alex Fiúza de. Gramsci, o capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências sociais.

3 apud Fiúza de Mello

4 Idem pág. 24.

5 Gramsci, Antonio. “Concepção Dialética da História”, 10ª edição, São Paulo, Civilização Brasileiro, 1995, tradução de Carlos Nelson Coutinho.

6 Gramsci, Antonio. apud Alex Fiúza de Mello. Gramsci, o Capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol 21, n° 62, pág. 107.

7 Idem, pág. 109.

8 Mello, Alex Fiuza de . Mundialização e Política em Gramsci.

9Coutinho, Liguori, Löwy, Rouanet. O Pensador Hegemônico. Folha de S. Paulo. Caderno Mais!, 21 nov. 1999.

10 Magrone, Eduardo. Gramsci e a Educação: A Renovação de uma Agenda Esquecida. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v26n70/a05v2670.pdf&gt;. Acesso em 09 jun 2007.

11Eagleton apud Bellan Rodrigues

12 BETH, Hanno e PROSS, Harry. Introducción a la ciência de la comunicación. Barcelona: Anthropos, 1987.

13 A e escola promove cursos formais e informais voltados para a produção, comércio e gestão dos acampamentos e assentamentos. Além disso, são realizados diversos encontros, seminários e atividades culturais para assentados e acampados, com a participação de mais de 1,8 mil educadores.
Para Maria Gorete Souza, da coordenação político pedagógica da ENFF, esses números apontam para uma importante conquista popular. “Nós conseguimos dar um passo importante no processo de formação da militância do MST e das outras organizações, possibilitando a elevação do nível cultural e de conhecimento para uma melhor atuação e compreensão da realidade que nós vivemos”.

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