Algo sério está acontecendo no mundo: A sabedoria de Mr. Dowe

20 de agosto de 2011 2 comentários

Impressionante entrevista de um cidadão de Londres à BBC. O relato do Sr. Dowe é retrato fiel de um mundo cada vez mais convulsionado pela crise econômica, pelo racismo, pela intolerância, é a voz daqueles que estão sendo massacrados pelos aparatos da repressão estatal de governos cada vez menos comprometidos com ideais de justiça e igualdade. Sobretudo a juventude das periferias, os negros, os imigrantes são submetidas à esse tratamento que fere todos os princípios dos direitos civis e humanos, isso acontece cotidianamente em todos os cantos do planeta.

Chama a atenção a boçalidade da ancôra do jornal, ao tentar de forma estúpida e espúria criminalizar o entrevistado, é o tipo de tratamento que os arautos do pensamento único quer impor as vozes dissidentes.

O escrito da revolucionária Rosa Luxemburgo que dizia que a ” liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente” continua extremamente atual e deveria servir de lição à mídia, aos  governos repressores  e à elite branca e xenófoba que abunda na Europa.

No Magreb, na Síria, no Afeganistão, na Somália, nos Estados Unidos, no Chile, na Noruega, na Espanha, na Grécia, no Reino Unido, é verdade Sr. Dowe,  algo de muito sério acontece.

Abaixo a entrevista, vale a pena ouvir as palavras desse velho negro imigrante das Índias Ocidentais, como se define o Sr. Dowe.

Fragmentos sobre a História da Síria – Parte I

10 de agosto de 2011 Deixe um comentário

A Síria possui uma extensa história. A partir da ascensão da religião muçulmana, a Síria foi um importante centro da civilização árabe, principalmente a partir do califado omíada (661-750), nesta época Damasco se tornou capital do mundo islâmico. Em1516, a Síria passa a fazer parte do império Otomano, essa situação se mantem até o inicio do século XX. Com o fim da Primeira Grande Guerra, a Síria é dividida em duas partes, uma sob domínio da França e outra sob domínio britânico.

O país se tornou independente em 1946. Em1948, participa da primeira guerra árabe-israelense, juntamente com o Iraque, Egito, Transjordania (atual Jordânia) e Líbano, perdendo a guerra para os israelenses. Em 1958, forma juntamente com o Egito de Gamal Abdel Nasser a República Árabe Unida (R.A.U), sob inspiração do pan-arabismo, separando-se três anos depois e transformando-se na República Síria, posteriormente em 1963 após um golpe militar, o Partido Baath chega ao poder – al-Kudsi, o antigo presidente pró ocidnte foi preso – comandado por Amin al-Hafiz, com apoio de Hafez Assad, a Síria passa a se chamar República Popular da Síria. Em 1970 depois de um período de muita instabilidade política interna no Baath e de seguidos golpes, Hafez Assad assume a presidência do país.

Em 1966, o país aliou-se novamente ao Egito e, em1967 envolveu-se na Guerra dos Seis Dias, após a invasão por parte de Israel da Faixa de Gaza, do Monte Sinai,  da Cisjordânia e das Colinas de Golã na própria Síria[1]. Mais tarde, em 1973, novamente entra em confronto com Israel, na chamada Guerra do Yom Kippur; porém em outubro do mesmo ano um cessar fogo negociado pela ONU entra em vigor.

Desde 1975 a Síria intervém na guerra civil libanesa. Até aquele momento tentava-se um meio-termo entre os diversos grupos religiosos – muçulmanos, cristãos, maronitas e druzos – a chegada de refugiados palestinos e os ataques de Israel, abriu uma larga temporada de instabilidade no Líbano. A Síria sempre adepta da causa palestina foi contrária as negociações de paz egipcio-israelitas. Em 1979 negocia com o Iraque a fusão entre as duas nações, entretanto no mesmo ano rompem relações em decorrência de divergências com o Partido Baath Iraquiano.

A Síria sempre reivindicou a restauração da Grande Síria que abarcava, além da própria Síria, o Líbano, entretanto quando do processo de descolonização a França tratou de garantir a divisão, formando-se assim, dois Estados-nação na região, posteriormente os estadunidenses garantiu apoio e proteção ao Líbano. Deste modo, a Síria viu a guerra civil libanesa como uma chance de restauração da Grande Síria.

Na década de 1990, a partir da invasão do Kwait pelo Iraque, o governo da Síria dado o novo cenário mundial com a dissolução da URSS que era o  principal aliado do governo de damasco, ensaiou-se uma nova concepção de política externa.
Hafez al Assad, apoia a ação dos EUA no Iraque contra Saddam Hussain. Concomitantemente, inicia a liberalização da economia do país. As iniciativas foram bem vistas pelas potências ocidentais, que acabam por aceitar a instalação de um governo pró-Síria no Líbano, colocando fim a guerra civil libanesa que durou 15 anos (1975-1990).

Porém na década de 2000, o processo de abertura foi obstruído. Ao mesmo tempo é iniciado o processo de sucessão, há algum tempo o presidente demonstrava sinais de enfermidade, e com a morte de Hafez Al Assad – foi o governante sírio por trinta anos, seu grupo não aceitava a menor discordância e a repressão era violenta –  controlado com mão de ferro pelo Partido Baath é indicado o filho do ditador morto.

Bashar Al Assad é escolhido como novo presidente do país. A alternativa de sucessão familiar veio como modo de evitar instabilidades políticas, já que poderia ocasionar uma luta interna fratricida no seio do Partido Baath, ainda procurava-se evitar uma confrontação entre a minoria alauita[2]  - A cúpula do Baath é de origem alauita – e a maioria sunita[3].

O regime sírio, ainda que autoritário, difere dos regimes islâmicos, já que tem caráter laico (por isso é detestado pelos fundamentalistas islâmicos da AL Qaeda e do Talibã), e reinvindica o chamado “socialismo árabe”, cunhado por Michel Aflaq, fundador em 1947 do Partido Socialista Árabe Baath, reivindicava-se como partido pan-árabe, laico e radical socialista e tinha como lema Unidade, Liberdade e Socialismo[4] (O Socialismo Árabe de Aflaq não rejeita o capitalismo como modo de produção, apenas condena o liberalismo ou o laisser faire, não faz uma interpretação classista da sociedade árabe, o socialismo seria um modo de organizar e alcançar o progresso através de um protagonismo econômico do governo, através das empresas públicas. O socialismo árabe adota a ideia de partido único, porém, renega a ditadura do proletariado, preconizando a assimilação de classes e a unidade árabe, renegando o internacionalismo e o ateísmo, diferindo-se, deste modo da tradição marxista).

A eleição de George W. Bush em 2011 alterou o desenho de forças na região, na visão do governo sírio, o objetivo de Bush, seria redefinir o caráter de diversos regimes, começando pelo Iraque, e posteriormente o Irã e a própria Síria, já que estes regimes em comum guardavam uma forte aversão ao Estado de Israel, o antiamericanismo e o domínio de boa parte do fluxo de petróleo na região. Estes países não por coincidência foram englobados no chamado Eixo do Mal, segundo a nova doutrina de segurança do governo estadunidense. Tal mudança alterou o posicionamento da Síria em relação ao Iraque, passando a amparar categoricamente o Iraque nas negociações na ONU para impedir a segunda guerra do Golfo Pérsico.

O Estado sírio, do ponto de vista institucional é forte, cultiva diversos aparelhos policiais que trabalham impecavelmente, já que durante décadas foi amparado pelas tecnologias da URSS. Após 1967, a ameaça exterior se particulariza na figura do Estado de Israel, e dos EUA como seu aliado absoluto. Nesse sentido, o regime sírio se sustentou no poder tanto em virtude da consistência dos aparelhos internos de repressão, buscando sempre se legitimar através da retórica que apontava a iminente possibilidade de invasão estrangeira.


[1] Atualmente as Colinas de Golã continuam sob ocupação isralense, mesmo após a ONU através da Resolução 497  não reconhecer Israel como detentor deste território.

[2] Cerca de 10% da população

[3] Cerca de 5% da população é cristã

[4] A “unidade” se refere à unidade árabe, a “liberdade” enfatiza a libertação do controle do imperialismo, e o “socialismo” se refere ao socialismo árabe e não ao socialismo marxista.

Gramsci e os Movimentos Sociais

24 de julho de 2011 Deixe um comentário

Antonio Gramsci1, assim como Marx, concebia o capitalismo como um modo de produção essencialmente mundializante, argumentando que há sempre um recorte entre o local, o nacional e o mundial. Para Gramsci a internacionalização é articulada e estruturada a partir de dois enfoques interdependentes e interdeterminantes: o fato em si e a visão do fato. O segundo aspecto é o mais relevante, pois esta visão de mundo é que irá determinar a universalidade e a abrangência dessa concepção (de universalidade) de mundo na ordem mundial.

Gramsci assinala um papel central da cultura nesse processo de globalização, o que fica claro com o emprego do conceito de hegemonia.

A hegemonia consiste em uma visão de mundo, sistemática e totalizante, que visa dirigir e abranger todas as classes sociais2. É construída uma visão de dominação que impulsionada pelos meios advindos da industria cultural, tendem a mascarar o conteúdo classista e buscar uma neutralidade que não existe nos acontecimentos.

A questão central em Gramsci se refere à capacidade dos grupos sociais, por meios dos intelectuais, proporem concepções que embora sejam a leitura de uma classe social, possam se tornar universais, superando o particular e o tornando global, permitindo assim o exercício da hegemonia, conforme Gruppi3: “A hegemonia é isso: capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe”4.

Ressalta-se a concepção de poder fundamentado na capacidade de um determinado grupo social, dirigir por meio de um consenso, outro grupo social antagônico, afirmando uma vontade universal a qual o objetivo é implantar um modelo econômico-politico e cultural. Nesse sentido, a classe dominada acabaria por assumir esse discurso que não lhe pertence, que não é próprio da sua classe.

Entretanto para Gramsci, há a possibilidade de uma transformação social, uma reforma ideológico-cultural conduzida pelas classes populares. Este projeto teria como um dos atores principais os intelectuais, que seriam responsáveis pela formulação e publicidade das novas idéias que reformariam a sociedade, criando uma contra-hegemonia. Para Gramsci: “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica e se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais”5.

Será ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cultural de uma nação sobre as outras? Ou já estará o mundo de tal modo unificado na sua estrutura econômico-social, que um país, ainda que podendo ter cronologicamente a iniciativa de uma inovação, não pode, porém, conservar o monopólio político e, portanto servir-se de tal monopólio como base de hegemonia? Qual significado que ainda pode ter hoje o nacionalismo? Não será ele possível apenas como imperialismo econômico-financeiro e não mais como primado civil ou hegemonia político intelectual?”6.

Nesta afirmação, Gramsci põe em duvida a capacidade do Estado-Nação em um mundo onde o capitalismo se unifica internacionalmente tanto na seara política como na cultural, relativizando, portanto, o papel do Estado-Nação no cenário da correlação de forças do sistema internacional, Assim Gramsci minimiza o conceito de nação e de imperialismo, embora não os descarte em sua teoria.

Como bom marxista, Gramsci considerava o capital “um organismo em continuo movimento, capaz de absorver toda a sociedade, assimilado-a ao seu nível cultural e econômico”, portanto o capitalismo é apátrida, para ele não há fronteiras, nem particularidades culturais.

A globalização altera o espaço e a correlação de forças nas relações internacionais, com a globalização há uma redefinição do que é soberania e um novo alcance das estruturas de poder que contemplam as transnacionais e as organizações internacionais.

É preciso levar em consideração que com as relações internas de um Estado-Nação se entrelaçam as relações internacionais, criando novas combinações originais, e historicamente concretas. Uma ideologia, nascida em um país mais desenvolvido, difunde-se em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combinações”7

Daí podemos concluir8 que muitos movimentos surgidos no âmbito nacional, seriam resultados, ou melhor, construídos a partir de uma lógica internacionalista, sendo produto da luta dos movimentos em nível mundial, pois muitos dos interesses estrangeiros são caracterizados como nacionais para que estes possam ser legitimados localmente.

Em Gramsci, já é concebido o alcance transnacional do capitalismo e que os atores das relações internacionais não estão mais presente apenas num ambiente local, mas interconectam se em ambientes diferentes, condicionando o local (o macro determinando o micro, o mundial determinando o nacional).

Para o autor, as transformações sociais passam pelo advento de novos valores culturais. Uma contra-hegemonia, conduzida pelos intelectuais e pelos movimentos populares, dariam vazão a uma nova visão de mundo e coesão social, permitindo a ação de um bloco histórico que se contraponha ao pensamento hegemônico.

Gramsci atento ao sentido mundializador das questões culturais, alerta para o sentido progressivo de substituição das visões localistas e nacionalistas por outras de cunho cosmopolita, de um poder substancialmente maior, pois essas manifestações estão afinadas com concepções universais e de transformação coletiva do mundo.

Isto é valido não somente para as manifestações de caráter secular, como as de caráter tradicional, como as manifestações religiosas, pois as grandes religiões como o cristianismo e o islamismo superam a visão particularista das religiões nacionais, pois as linguagens mais simples acabam por serem sufocadas pelas abordagens mais complexas.

A tese cosmopolita9 de Gramsci é considerada de suma importância para sua teoria de cultura, visa informar aos lideres dos movimentos internacionalistas que qualquer posicionamento só tem chance de obtenção de sucesso, se forem levados em conta às necessidades da vida e as exigências da cultura dos povos, as lutas nacionais passam a estar submissas a problemática cultural, e esta não pode estar subordinada apenas a política e a luta de classes, preconizando a superação do afastamento entre cultura e povo, entre intelectuais e a massa.

O debate sobre a globalização, lançado pelos movimentos sociais, apresenta hoje o que Gramsci chama de “guerra de posição”10 um embate teórico que afirme e forme gerações, que aprofundem ou desafiem concepções de mundo, é portanto um embate cultural, que visa uma internalização de uma hegemonia, pela capacidade de buscar alternativas e experiências que busquem o convencimento ou não de novas maneiras de enxergar o mundo.

Dentro dos paradigmas gramscianos e refletindo a sociedade atual concebemos que uma ferramenta interessante de criação de uma contra-hegemonia, precisaria, sobretudo, pensar uma estratégia para os aparelhos tecnológicos e de comunicação, como já é praticado por diversos movimentos sociais espalhados pelo mundo.

Na sociedade moderna, então, não é suficiente ocupar fábricas ou entrar em confronto com o Estado. O que também deve ser contestado é toda a área da “cultura”, definida em seu sentido mais amplo, mais corriqueiro. O poder da classe dominante é espiritual assim como material, e qualquer “contra hegemonia” deve levar sua campanha política até esse domínio, até agora negligenciado, de valores e costumes, hábitos discursivos e práticas rituais”.11.

Portanto os movimentos sociais em seu campo de atuação poderão se utilizar de meios de comunicação de massa, que venham criar mecanismos de contraposição às concepções hegemônicas, podendo assim construir novos saberes e visões políticas contra hegemônicas, e difundi-las à opinião publica mundial. Nesse sentido o intelectual orgânico preconizado por Gramsci seria uma espécie de comunicador ativista dos movimentos sociais, se contrapondo culturalmente aos intelectuais do modelo dominante da globalização neoliberal.

Os meios de comunicação podem produzir, em termos quantitativos e qualitativos, um universo cultural e informativo superior àquele elaborado de forma natural, espontânea e artesanal. Não obstante, esse processo precisa ser qualificado de modo consciente, como ação das instâncias políticas e técnicas, sob hegemonia da ideologia revolucionária e articulada dialeticamente com os interesses e consciência das massas. Através dos modernos meios de comunicação radicaliza-se a possibilidade das transformações na consciência e na cultura. Portanto, aumenta a possibilidade do sujeito coletivo agir diretamente sobre si mesmo, a partir de suas diferenças internas, contradições e potencialidades daí decorrentes”.12

Nesse aspecto ganha centralidade o já apontado e clássico exemplo do Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e sua forte estratégia de usar a Internet como meio de divulgar seu ideário e suas ações, permitindo assim a construção de apoios e alianças na sociedade civil organizada.

Outra questão que apresenta muita relação com as abordagens gramscianas de criação de uma nova hegemonia das classes subalternas, transparece no exemplo do MST, que está formando seus próprios intelectuais.

O movimento dos Sem Terra interage aproximadamente com 1500 escolas em seus assentamentos e seus acampamentos, e idealizou a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) 13 no município de Guararema, interior de São Paulo, tomando para si a educação dos seus militantes e criando novos conceitos pedagógicos, de formação política e cultural.

Portanto no horizonte da globalização é preciso criar novas formas de educação em contraponto a educação tradicional que sofre grande influencia do pensamento dominante neoliberal, pois muitas dessas políticas educacionais são financiadas com dinheiro de organismos como o Banco Mundial, nesse sentido os movimentos sociais apontam a necessidade de barrar a implantação de ações que visam mercantilizar a educação, como propõem os diversos Tratados de Liberalização Comercial (TLC), a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC).

1 Mello, Alex Fiúza de. Mundialização e política em Gramsci, cap. 2, pag. 19.

2 Mello, Alex Fiúza de. Gramsci, o capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências sociais.

3 apud Fiúza de Mello

4 Idem pág. 24.

5 Gramsci, Antonio. “Concepção Dialética da História”, 10ª edição, São Paulo, Civilização Brasileiro, 1995, tradução de Carlos Nelson Coutinho.

6 Gramsci, Antonio. apud Alex Fiúza de Mello. Gramsci, o Capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol 21, n° 62, pág. 107.

7 Idem, pág. 109.

8 Mello, Alex Fiuza de . Mundialização e Política em Gramsci.

9Coutinho, Liguori, Löwy, Rouanet. O Pensador Hegemônico. Folha de S. Paulo. Caderno Mais!, 21 nov. 1999.

10 Magrone, Eduardo. Gramsci e a Educação: A Renovação de uma Agenda Esquecida. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v26n70/a05v2670.pdf>. Acesso em 09 jun 2007.

11Eagleton apud Bellan Rodrigues

12 BETH, Hanno e PROSS, Harry. Introducción a la ciência de la comunicación. Barcelona: Anthropos, 1987.

13 A e escola promove cursos formais e informais voltados para a produção, comércio e gestão dos acampamentos e assentamentos. Além disso, são realizados diversos encontros, seminários e atividades culturais para assentados e acampados, com a participação de mais de 1,8 mil educadores.
Para Maria Gorete Souza, da coordenação político pedagógica da ENFF, esses números apontam para uma importante conquista popular. “Nós conseguimos dar um passo importante no processo de formação da militância do MST e das outras organizações, possibilitando a elevação do nível cultural e de conhecimento para uma melhor atuação e compreensão da realidade que nós vivemos”.

Breves palavras sobre Cleodon Silva e a OSM-SP

9 de julho de 2011 1 comentário

Uma das figuras centrais da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP), o Cleodon Silva, faleceu no dia 7 de junho, uma perda e tanto pro sindicalismo e pra todos os lutadores sociais que assim como o Silva, sonharam com um mundo mais justo, onde a solidariedade e o coletivo sobrepujasse os interesses mesquinhos do individualismo e da barbárie do capitalismo que reduz as relações humanas à fluidez e a banalidade dos interesses do mercado.

Tive a oportunidade de conversar com o Silva, brevemente, cerca de três vezes, fiquei impressionado com sua calma, a fala pausada, o jeito simples de ser, poucos imaginariam que aquela pessoa com voz tão serena, tenha desafiado os militares, patrões e o sindicalismo pelego na década de 1970 e 1980.

Cabe destacar a importância da OSM-SP, uma das fontes constitutivas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), juntamente com o sindicalismo do ABC, em que pese as diferenças latentes entre as duas vertentes. Na OSM-SP se organizaram diversas correntes da esquerda brasileira, refratárias a linha dos PCs – militantes da POLOP, Democracia Socialista, Convergência Socialista, Libelu, posadistas e diversos outros grupos, além da importante contribuição dos militantes advindos dos setores progressistas da igreja católica sob o norte da Teologia da Libertação desenvolvida à partir do pensamento de José Comblin, Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff entre outros -  conhecer a história da OSM-SP que surge na resistência à ditadura militar e contra a estrutura sindical atrelada ao Estado e aos patrões, nos permite entender a linha política das diversas vertentes do sindicalismo brasileiro nas décadas de 60, 70 e 80 do século XX, além de nos propiciar uma melhor compreensão do comportamento político de diversas organizações políticas dos dias atuais, começamos a perceber que certas práticas permanecem até hoje, tanto em setores referenciados na CUT e no PT, seja naqueles que tem como referência a tradição da III Internacional (PCdoB, PCB e MR-8/PPL).

Uma boa alternativa para conhecer um pouco da história da Oposição é o livro Confronto Operário de Maria Rosângela Batistoni (para baixar o livro, clique na imagem da capa logo acima ou para conhecer um pouco mais sobre a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo visite o sítio do Projeto Memória da OSM-SP do IIEP), tive a oportunidade de dar uma pequena contribuição neste livro, fato que me permitiu conhecer mais a história da OSM-SP, e dos seus principais personagens. Uma história de muita luta, de debate político qualificado e de construção de uma visão ímpar do sindicalismo brasileiro. Conviver um pouco com essas pessoas é uma grande experiência pra militância e para a vida, até me imagino com a linda camisa vermelha da chapa 2  (um dia quero ter uma réplica dela), que foi utilizada  pelo Luis Carlos Prestes quando este apoiou a oposição, rompendo e denunciando a traição do comitê central do PCB que se aliará com os pelegos capitaneados pelo Joaquinzão.

Voltando ao camarada Silva, antes de falecer estava dedicando-se a formação dos jovens da Casa dos Meninos, portanto é muito provável que o seu legado de militância aguerrida e coerente continue a permear a ação de diversos lutadores sociais na Zona Sul da cidade de São Paulo e no Brasil.

Abaixo posto um vídeo muito interessante, produzido pelo Projeto Memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, onde o Silva conta algumas passagens de sua militância e um pouco do seu pensamento político.

Camarada Silva, PRESENTE!

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O Governo Jacobo Arbenz na Guatemala, um exemplo do intervencionismo dos EUA na América Central na década de 1950

27 de março de 2011 8 comentários

A partir do final da década de 1950, no contexto da Guerra Fria, observou-se na América Latina uma crescente ampliação das intervenções do governo dos EUA na política dos países latino americanos. Preocupados com a crescente influencia da esquerda junto aos governos nacionalistas da região, o Governo dos EUA sustentou diversos golpes militares que visavam afastar a ameaça comunista na região, nesse contexto a Agência Central de Inteligência (CIA), teve papel central ao servir como órgão de apoio do governo dos EUA aos setores da elite reacionária da América Latina.

Já em 1954, a CIA protagonizou o golpe de Estado que derrubou o governo progressista de Jacobo Arbenz, na Guatemala, militar nacionalista apoiado pelos comunistas do Partido Guatemalteco dos Trabalhadores1 (PGT). Arbenz chegou ao poder ao vencer as eleições de 1950, quando teve cerca de 65% dos votos.

Historicamente subordinado aos interesses do governo e das empresas estadunidenses, sobretudo a United Company Fruit, multinacional que atuava na produção e comercio de frutas e que exercia grande poder de influencia nos países da América Central com o apoio das oligarquias nativas, dominavam a politica na região, daí a origem da famosa expressão “Republica das Bananas”, para nomear os países centro-americanos.

Já em 1944, a Guatemala após a Revolução de Outubro que deu fim a ditadura do General Ubico passa por um processo de transformações democráticas e anti-imperialistas, segundo Rampirnase2:

Era uma revolução nacionalista, porque reivindicava para a Guatemala e seu povo a riqueza do país, a qual era subtraída por alguns monopólios estadunidenses, especialmente a United Fruit Company (UFCO), a International Railways of Central América (IRCA) e a Companhia Elétrica da Guatemala. A revolução tentava sair do esquema banana republic e das decisões econômicas de Boston[sede da UFC] que afetavam a maioria da população guatemalteca”.

Ao tomar posse na presidência, Arbenz, promete romper o modelo de dependência econômica, pregando a modernização do capitalismo guatemalteco, processo este que já havia sido iniciado no governo Arévalo, coube ao novo governo aprofundar as transformações, realizando a reforma agraria, a nacionalização das riquezas naturais, expropriação das terras de empresas estadunidenses, entre outras medidas.

A United Fruit Company detinha cerca de 7% do total de terras agricultáveis do país que estavam ociosas, e foi o maior alvo das desapropriações do governo, a multinacional tinha estreitas relações com o governo Eisenhower e, portanto a resposta de Washington veio imediatamente, e começa a ser articulado pela UFC e a CIA um plano para desestabilizar o governo, usando o artificio de classificar o governo como fantoche do comunismo internacional e da URSS.

Se valendo de artifícios como esse os EUA consegue isolar o governo guatemalteco dos demais países da América Central. A partir desse momento um exercito de mercenários treinados pela CIA começa a articular o golpe – foi a primeira intervenção direta da CIA na América Latina – invadindo o país através da fronteira com Honduras sustenta o inicio do golpe de estado, a resistencia foi inócua e logo setores do exercito que supostamente apoiavam lealmente o governo se aliaram aos imperialistas e a oligarquia local, em 27 de junho de 1954 o governo constitucional é derrubado e sob a liderança do Coronel Castillo Armas é instituida uma brutal ditadura que segundo estimativas foi responsavel por 200 mil mortes e desaparecimentos políticos, esse novo governo golpista pró imperialismo, como não poderia deixar de ser, logo foi reconhecido pelos Estados Unidos, de acordo com documento do PGT de 19553:

O governo dos EUA tentou disfarçar em vão os fatos e ocultar suas responsabilidades de organizador da intervenção, atribuindo ao povo guatemalteco a derrubada do regime democrático eleito por este mesmo povo. A verdade que nosso povo conhece, e cada dia fica mais evidente, é que o golpe contra o legitimo governo de Arbenz é obra dos monopólios ianques, como a United Fruit Company; assim é obra dos EUA”.

Possivelmente, Arbenz e o PGT poderiam conter a ofensiva imperialista, entretanto cometeram erros que inviabilizaram a resistência, como a de confiar demasiadamente nos setores da burguesia nacional, em detrimento da mobilização popular, fazendo uma autocritica o PGT declara no documento de 1955:

O PGT não estimou corretamente a pouca capacidade de resistência a burguesia nacional e nem sempre levou em conta seu caráter conciliador perante o imperialismo e as classe reacionárias; por isso, ele se iludiu com relação ao patriotismo, à lealdade e à firmeza da burguesia nacional em face das investidas do imperialismo norte-americano”.

Pouco antes do Golpe, o trotskista Ismael Frias criticando o imobilismo do PGT diante a postura moderada da burguesia nacional e o exercito, frente a ameaça imperialista afirma4:

A única garantia eficaz contra as insurreições reacionárias é democratizar o exercito e armar o povo. Deve-se constituir comitês de classes e soldados para a depuração dos oficiais antidemocráticos e proceder a eleição dos oficiais pela tropa. É preciso armar os operários e trabalhadores do campo, organizando-os em milicias, sob a direção exclusiva dos sindicatos”

A experiencia de Arbenz na Guatemala foi positiva na medida que apontou uma série de caminhos que alguns anos mais tarde inspirarão diversos governos democráticos na América do Sul e Central, no entanto os erros cometidos, sobretudo em relação a exacerbada confiança nos setores democráticos burgueses e no exército e o aspecto geopolítico do momento despertou a contraofensiva dos EUA na sua estratégia de impedir uma possível onda vermelha no continente americano, impedindo assim, um processo de mudanças importantes, que poderia romper com o atraso econômico, politico e social na região.

1A Aliança com setores da burguesia nacional expressa a linha politica adotada pelos Partidos Comunistas ortodoxos

2RAMPINELLI, W.J. O primeiro grande êxito da C.I.A. na América Latina

3Guatemala: a autocrítica dos comunistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais.

4FRIAS, Ismael. Guatemala: a posição dos trotskistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais

 

 

 

II – A Revolução Líbia, Kadafi no Poder e sua Terceira Teoria Universal

19 de março de 2011 6 comentários

 

Jovem Kadafi, discursa

Continuação do artigo: A independência da Líbia e o período monárquico

 

Atrelado as potencias ocidentais o governo de Idris, adota uma postura passiva diante dos conflitos entre os países árabes e Israel, tal comportamento provocou insatisfação, e uma onda de manifestações tomou corpo no país norte africano, o clamor dos manifestantes obrigou o governo a se posicionar favoravelmente ao boicote do petróleo arquitetado pelos países árabes.

 

Os protestos demonstraram o avanço do nacionalismo árabe na Líbia, principalmente nos meios intelectuais e burgueses, entretanto não havia no país, uma sociedade civil organizada ou movimentos políticos capazes de galvanizar as insatisfação popular com o projeto de subordinação aos interesses das grandes potencias do regime de Idris, porém o comportamento do governo criou insatisfações no exercito que naquele momento começava a sofrer grande influencia dos ideais pan-arabistas.

 

A insatisfação se tornou concreta, e um grupo de militares radicalizados, comandados pelo capitão Muammar Kadhafi – na época com 27 anos – aproveitando-se de uma viagem internacional do rei Idris, tomou o poder, em setembro de 1969 sem que ao menos houvesse derramamento de uma gota de sangue, a partir desse momento, sob inspiração do nacionalismo árabe, do socialismo árabe e do Islã surge a Jamairia Árabe Popular Socialista da Líbia.

 

Os militares revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – do país, permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da espoliação promovida pelas potencias ocidentais. A Revolução Líbia foi exitosa no sentido de livrar o país da exploração imperialista e promover certo desenvolvimento socioeconômico, hoje a Líbia é o país africano com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente de todos os países dos BRICS, o que não é pouco em se tratando de um país que se livrou do neocolonialismo europeu.

 

A Terceira Teoria Universal

 

Kadafi, enfatizava que a Líbia deveria passar por uma transformação sociocultural, e para sistematizar seu pensamento elaborou a Terceira Teoria Universal (A primeira e a segunda, são o capitalismo liberal e o socialismo cientifico). Em seu Livro Verde (1976), expõe os princípios que norteiam a revolução cultural líbia, indicando que só uma terceira via seria capaz de levar a justiça e a democracia verdadeira aos povos, denunciando deste modo a corrupção das “maquinas de governar” do sistema capitalista e do socialismo marxista, resumindo o sentido de sua “revolução cultural”, afirma:

 

Este LIVRO VERDE apresenta solução teórica definitiva do problema da “máquina de governar”…Nos nossos dias, os regimes políticos, no seu todo, são o resultado da luta travada por essas “máquinas” para alcançar o poder — quer essa luta seja pacífica, quer seja armada, como a luta de classes, de seitas, de tribos ou de partidos ou de indivíduos, ela salda-se sempre pelo sucesso de uma “máquina”, indivíduo, grupo, partido ou classe, e pela derrota do povo, logo, pela derrota da verdadeira democracia.”


Para Kadafi a democracia participativa é uma fraude, já que falsificaria o verdadeiro significado da palavra democracia, “o poder do povo”, o parlamentar e seu partido politico, não passariam de um usurpador do poder popular:

 

Quando a assembleia parlamentar é formada, na sequência de um partido nas eleições, ela é a assembleia do partido e não a assembleia do povo – ela representa um partido e não o povo – e o poder executivo detido pela assembleia parlamentar é o poder do partido vencedor e não o poder do povo”.


O governante líbio, não aceita a existência de partidos, se refere a eles como forças que servem de instrumento à perpetuação das ditaduras modernas, tanto no sistema capitalista, como no socialismo. Aponta que a luta entre partidos adversários são como as lutas entre tribos e seitas (ao se referir a luta de classes, usa o mesmo argumento), e que estes invariavelmente estão fadados a se corromperem. A luta de um partido é chegar ao poder e na opinião de Kadafi não é justo que um só partido governe uma nação:

 

objetivo de um partido é o de alcançar o poder em nome da execução do seu próprio programa. Não é democraticamente admissível que um partido governe um povo inteiro, porque este é constituído por interesses, opiniões, temperamentos, ideologias ou origens diferentes”


Interessante notar como já apontei em artigo anterior a repulsa do socialismo árabe aos conceitos centrais do socialismo cientifico, mesmo respeitando as especificidades socioeconômicas e culturais dos países da região, não se pode deixar de destacar a aversão ao conjunto de paradigmas que sistematizam o pensamento marxista, tanto na versão do socialismo árabe de Michel Aflaq e seu Partido Baath, como na versão kadafista:

 

Todas as sociedades onde as classes se combatem entre si foram, antes disso, sociedades de classe única. Mas essa mesma classe engendrou outras classes, em consequência da evolução inevitável das coisa… Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de por fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de representantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”.


A solução para as imposturas do capitalismo liberal e do marxismo seria a realização da democracia direta, deste modo o único meio de se atingir a democracia popular seria por meios dos congressos e comitês populares, já que seria impossível reunir toda população de um Estado-Nação em um só local, através da Terceira Teoria Universal e de forma messiânica, Kadafi anuncia a solução para o problema da democracia: “O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.


A ideia é bem simples, o povo se dividiria em congressos de bases, por sua vez os congressos escolheriam um comitê, que formariam congressos populares, o conjunto dos congressos populares formariam comitês administrativos substituiriam o poder centralizado e passariam a gerir os serviços públicos. A cada ano se reuniria o Congresso Geral do Povo, que discutiria os problemas levantados nos diversos congressos e comitês, nas palavras de Kadafi: O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. “Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.


É evidente que esse modelo é um meio de democracia representativa sem partidos políticos, no entanto, na prática Kadafi sempre exerceu o poder – em aliança com os diversos chefes tribais – com mão de ferro e sempre procurou alijar possíveis opositores de mecanismos de ausculta popular, se perpetuando no poder por mais de 40 anos. Os avanços econômicos garantiram a popularidade de Kadafi e poucos desafiaram seu regime, a conjuntura começou a mudar a partir da década de 2000 quando se adota medidas liberalizantes, que gera desemprego e por consequência, insatisfação popular. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

 

Marcio Moraes do Nascimento

*Continuação do artigo

 

Atrelado as potencias ocidentais o governo de Idris, adota uma postura passiva diante dos conflitos entre os países árabes e Israel, tal comportamento provocou insatisfação, e uma onda de manifestações tomou corpo no país norte africano, o clamor dos manifestantes obrigou o governo a se posicionar favoravelmente ao boicote do petróleo arquitetado pelos países árabes.

 

Os protestos demonstraram o avanço do nacionalismo árabe na Líbia, principalmente nos meios intelectuais e burgueses, entretanto não havia no país, uma sociedade civil organizada ou movimentos políticos capazes de galvanizar as insatisfação popular com o projeto de subordinação aos interesses das grandes potencias do regime de Idris, porém o comportamento do governo criou insatisfações no exercito que naquele momento começava a sofrer grande influencia dos ideais pan-arabistas.

 

A insatisfação se tornou concreta, e um grupo de militares radicalizados, comandados pelo capitão Muammar Kadhafi – na época com 27 anos – aproveitando-se de uma viagem internacional do rei Idris, tomou o poder, em setembro de 1969 sem que ao menos houvesse derramamento de uma gota de sangue, a partir desse momento, sob inspiração do nacionalismo árabe, do socialismo árabe e do Islã surge a Jamairia Árabe Popular Socialista da Líbia.

 

Os militares revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – do país, permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da espoliação promovida pelas potencias ocidentais. A Revolução Líbia foi exitosa no sentido de livrar o país da exploração imperialista e promover certo desenvolvimento socioeconômico, hoje a Líbia é o país africano com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente de todos os países dos BRICS, o que não é pouco em se tratando de um país que se livrou do neocolonialismo europeu.

 

A Terceira Teoria Universal

 

Kadafi, enfatizava que a Líbia deveria passar por uma transformação sociocultural, e para sistematizar seu pensamento elaborou a Terceira Teoria Universal (A primeira e a segunda, são o capitalismo liberal e o socialismo cientifico). Em seu Livro Verde (1976), expõe os princípios que norteiam a revolução cultural líbia, indicando que só uma terceira via seria capaz de levar a justiça e a democracia verdadeira aos povos, denunciando deste modo a corrupção das “maquinas de governar” do sistema capitalista e do socialismo marxista, resumindo o sentido de sua “revolução cultural”, afirma:

 

Este LIVRO VERDE apresenta solução teórica definitiva do problema da “máquina de governar”…Nos nossos dias, os regimes políticos, no seu todo, são o resultado da luta travada por essas “máquinas” para alcançar o poder — quer essa luta seja pacífica, quer seja armada, como a luta de classes, de seitas, de tribos ou de partidos ou de indivíduos, ela salda-se sempre pelo sucesso de uma “máquina”, indivíduo, grupo, partido ou classe, e pela derrota do povo, logo, pela derrota da verdadeira democracia.”

 

Para Kadafi a democracia participativa é uma fraude, já que falsificaria o verdadeiro significado da palavra democracia, “o poder do povo”, o parlamentar e seu partido politico, não passariam de um usurpador do poder popular:

 

Quando a assembleia parlamentar é formada, na sequência de um partido nas eleições, ela é a assembleia do partido e não a assembleia do povo – ela representa um partido e não o povo – e o poder executivo detido pela assembleia parlamentar é o poder do partido vencedor e não o poder do povo”.

 

O governante líbio, não aceita a existência de partidos, se refere a eles como forças que servem de instrumento à perpetuação das ditaduras modernas, tanto no sistema capitalista, como no socialismo. Aponta que a luta entre partidos adversários são como as lutas entre tribos e seitas (ao se referir a luta de classes, usa o mesmo argumento), e que estes invariavelmente estão fadados a se corromperem. A luta de um partido é chegar ao poder e na opinião de Kadafi não é justo que um só partido governe uma nação:

 

objetivo de um partido é o de alcançar o poder em nome da execução do seu próprio programa. Não é democraticamente admissível que um partido governe um povo inteiro, porque este é constituído por interesses, opiniões, temperamentos, ideologias ou origens diferentes”

 

Interessante notar como já apontei em artigo anterior a repulsa do socialismo árabe aos conceitos centrais do socialismo cientifico, mesmo respeitando as especificidades socioeconômicas e culturais dos países da região, não se pode deixar de destacar a aversão ao conjunto de paradigmas que sistematizam o pensamento marxista, tanto na versão do socialismo árabe de Michel Aflaq e seu Partido Baath, como na versão kadafista:

 

Todas as sociedades onde as classes se combatem entre si foram, antes disso, sociedades de classe única. Mas essa mesma classe engendrou outras classes, em consequência da evolução inevitável das coisa… Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de por fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de representantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”.

 

A solução para as imposturas do capitalismo liberal e do marxismo seria a realização da democracia direta, deste modo o único meio de se atingir a democracia popular seria por meios dos congressos e comitês populares, já que seria impossível reunir toda população de um Estado-Nação em um só local, através da Terceira Teoria Universal e de forma messiânica, Kadafi anuncia a solução para o problema da democracia: “O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

A ideia é bem simples, o povo se dividiria em congressos de bases, por sua vez os congressos escolheriam um comitê, que formariam congressos populares, o conjunto dos congressos populares formariam comitês administrativos substituiriam o poder centralizado e passariam a gerir os serviços públicos. A cada ano se reuniria o Congresso Geral do Povo, que discutiria os problemas levantados nos diversos congressos e comitês, nas palavras de Kadafi: O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. “Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

É evidente que esse modelo é um meio de democracia representativa sem partidos políticos, no entanto, na prática Kadafi sempre exerceu o poder – em aliança com os diversos chefes tribais – com mão de ferro e sempre procurou alijar possíveis opositores de mecanismos de ausculta popular, se perpetuando no poder por mais de 40 anos. Os avanços econômicos garantiram a popularidade de Kadafi e poucos desafiaram seu regime, a conjuntura começou a mudar a partir da década de 2000 quando se adota medidas liberalizantes, que gera desemprego e por consequência, insatisfação popular. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Continuação do artigo

 

Atrelado as potencias ocidentais o governo de Idris, adota uma postura passiva diante dos conflitos entre os países árabes e Israel, tal comportamento provocou insatisfação, e uma onda de manifestações tomou corpo no país norte africano, o clamor dos manifestantes obrigou o governo a se posicionar favoravelmente ao boicote do petróleo arquitetado pelos países árabes.

 

Os protestos demonstraram o avanço do nacionalismo árabe na Líbia, principalmente nos meios intelectuais e burgueses, entretanto não havia no país, uma sociedade civil organizada ou movimentos políticos capazes de galvanizar as insatisfação popular com o projeto de subordinação aos interesses das grandes potencias do regime de Idris, porém o comportamento do governo criou insatisfações no exercito que naquele momento começava a sofrer grande influencia dos ideais pan-arabistas.

 

A insatisfação se tornou concreta, e um grupo de militares radicalizados, comandados pelo capitão Muammar Kadhafi – na época com 27 anos – aproveitando-se de uma viagem internacional do rei Idris, tomou o poder, em setembro de 1969 sem que ao menos houvesse derramamento de uma gota de sangue, a partir desse momento, sob inspiração do nacionalismo árabe, do socialismo árabe e do Islã surge a Jamairia Árabe Popular Socialista da Líbia.

 

Os militares revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – do país, permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da espoliação promovida pelas potencias ocidentais. A Revolução Líbia foi exitosa no sentido de livrar o país da exploração imperialista e promover certo desenvolvimento socioeconômico, hoje a Líbia é o país africano com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente de todos os países dos BRICS, o que não é pouco em se tratando de um país que se livrou do neocolonialismo europeu.

 

A Terceira Teoria Universal

 

Kadafi, enfatizava que a Líbia deveria passar por uma transformação sociocultural, e para sistematizar seu pensamento elaborou a Terceira Teoria Universal (A primeira e a segunda, são o capitalismo liberal e o socialismo cientifico). Em seu Livro Verde (1976), expõe os princípios que norteiam a revolução cultural líbia, indicando que só uma terceira via seria capaz de levar a justiça e a democracia verdadeira aos povos, denunciando deste modo a corrupção das “maquinas de governar” do sistema capitalista e do socialismo marxista, resumindo o sentido de sua “revolução cultural”, afirma:

 

Este LIVRO VERDE apresenta solução teórica definitiva do problema da “máquina de governar”…Nos nossos dias, os regimes políticos, no seu todo, são o resultado da luta travada por essas “máquinas” para alcançar o poder — quer essa luta seja pacífica, quer seja armada, como a luta de classes, de seitas, de tribos ou de partidos ou de indivíduos, ela salda-se sempre pelo sucesso de uma “máquina”, indivíduo, grupo, partido ou classe, e pela derrota do povo, logo, pela derrota da verdadeira democracia.”

 

Para Kadafi a democracia participativa é uma fraude, já que falsificaria o verdadeiro significado da palavra democracia, “o poder do povo”, o parlamentar e seu partido politico, não passariam de um usurpador do poder popular:

 

Quando a assembleia parlamentar é formada, na sequência de um partido nas eleições, ela é a assembleia do partido e não a assembleia do povo – ela representa um partido e não o povo – e o poder executivo detido pela assembleia parlamentar é o poder do partido vencedor e não o poder do povo”.

 

O governante líbio, não aceita a existência de partidos, se refere a eles como forças que servem de instrumento à perpetuação das ditaduras modernas, tanto no sistema capitalista, como no socialismo. Aponta que a luta entre partidos adversários são como as lutas entre tribos e seitas (ao se referir a luta de classes, usa o mesmo argumento), e que estes invariavelmente estão fadados a se corromperem. A luta de um partido é chegar ao poder e na opinião de Kadafi não é justo que um só partido governe uma nação:

 

objetivo de um partido é o de alcançar o poder em nome da execução do seu próprio programa. Não é democraticamente admissível que um partido governe um povo inteiro, porque este é constituído por interesses, opiniões, temperamentos, ideologias ou origens diferentes”

 

Interessante notar como já apontei em artigo anterior a repulsa do socialismo árabe aos conceitos centrais do socialismo cientifico, mesmo respeitando as especificidades socioeconômicas e culturais dos países da região, não se pode deixar de destacar a aversão ao conjunto de paradigmas que sistematizam o pensamento marxista, tanto na versão do socialismo árabe de Michel Aflaq e seu Partido Baath, como na versão kadafista:

 

Todas as sociedades onde as classes se combatem entre si foram, antes disso, sociedades de classe única. Mas essa mesma classe engendrou outras classes, em consequência da evolução inevitável das coisa… Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de por fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de representantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”.

 

A solução para as imposturas do capitalismo liberal e do marxismo seria a realização da democracia direta, deste modo o único meio de se atingir a democracia popular seria por meios dos congressos e comitês populares, já que seria impossível reunir toda população de um Estado-Nação em um só local, através da Terceira Teoria Universal e de forma messiânica, Kadafi anuncia a solução para o problema da democracia: “O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

A ideia é bem simples, o povo se dividiria em congressos de bases, por sua vez os congressos escolheriam um comitê, que formariam congressos populares, o conjunto dos congressos populares formariam comitês administrativos substituiriam o poder centralizado e passariam a gerir os serviços públicos. A cada ano se reuniria o Congresso Geral do Povo, que discutiria os problemas levantados nos diversos congressos e comitês, nas palavras de Kadafi: O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. “Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

É evidente que esse modelo é um meio de democracia representativa sem partidos políticos, no entanto, na prática Kadafi sempre exerceu o poder – em aliança com os diversos chefes tribais – com mão de ferro e sempre procurou alijar possíveis opositores de mecanismos de ausculta popular, se perpetuando no poder por mais de 40 anos. Os avanços econômicos garantiram a popularidade de Kadafi e poucos desafiaram seu regime, a conjuntura começou a mudar a partir da década de 2000 quando se adota medidas liberalizantes, que gera desemprego e por consequência, insatisfação popular. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Continuação do artigo

 

Atrelado as potencias ocidentais o governo de Idris, adota uma postura passiva diante dos conflitos entre os países árabes e Israel, tal comportamento provocou insatisfação, e uma onda de manifestações tomou corpo no país norte africano, o clamor dos manifestantes obrigou o governo a se posicionar favoravelmente ao boicote do petróleo arquitetado pelos países árabes.

 

Os protestos demonstraram o avanço do nacionalismo árabe na Líbia, principalmente nos meios intelectuais e burgueses, entretanto não havia no país, uma sociedade civil organizada ou movimentos políticos capazes de galvanizar as insatisfação popular com o projeto de subordinação aos interesses das grandes potencias do regime de Idris, porém o comportamento do governo criou insatisfações no exercito que naquele momento começava a sofrer grande influencia dos ideais pan-arabistas.

 

A insatisfação se tornou concreta, e um grupo de militares radicalizados, comandados pelo capitão Muammar Kadhafi – na época com 27 anos – aproveitando-se de uma viagem internacional do rei Idris, tomou o poder, em setembro de 1969 sem que ao menos houvesse derramamento de uma gota de sangue, a partir desse momento, sob inspiração do nacionalismo árabe, do socialismo árabe e do Islã surge a Jamairia Árabe Popular Socialista da Líbia.

 

Os militares revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – do país, permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da espoliação promovida pelas potencias ocidentais. A Revolução Líbia foi exitosa no sentido de livrar o país da exploração imperialista e promover certo desenvolvimento socioeconômico, hoje a Líbia é o país africano com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente de todos os países dos BRICS, o que não é pouco em se tratando de um país que se livrou do neocolonialismo europeu.

 

A Terceira Teoria Universal

 

Kadafi, enfatizava que a Líbia deveria passar por uma transformação sociocultural, e para sistematizar seu pensamento elaborou a Terceira Teoria Universal (A primeira e a segunda, são o capitalismo liberal e o socialismo cientifico). Em seu Livro Verde (1976), expõe os princípios que norteiam a revolução cultural líbia, indicando que só uma terceira via seria capaz de levar a justiça e a democracia verdadeira aos povos, denunciando deste modo a corrupção das “maquinas de governar” do sistema capitalista e do socialismo marxista, resumindo o sentido de sua “revolução cultural”, afirma:

 

Este LIVRO VERDE apresenta solução teórica definitiva do problema da “máquina de governar”…Nos nossos dias, os regimes políticos, no seu todo, são o resultado da luta travada por essas “máquinas” para alcançar o poder — quer essa luta seja pacífica, quer seja armada, como a luta de classes, de seitas, de tribos ou de partidos ou de indivíduos, ela salda-se sempre pelo sucesso de uma “máquina”, indivíduo, grupo, partido ou classe, e pela derrota do povo, logo, pela derrota da verdadeira democracia.”

 

Para Kadafi a democracia participativa é uma fraude, já que falsificaria o verdadeiro significado da palavra democracia, “o poder do povo”, o parlamentar e seu partido politico, não passariam de um usurpador do poder popular:

 

Quando a assembleia parlamentar é formada, na sequência de um partido nas eleições, ela é a assembleia do partido e não a assembleia do povo – ela representa um partido e não o povo – e o poder executivo detido pela assembleia parlamentar é o poder do partido vencedor e não o poder do povo”.

 

O governante líbio, não aceita a existência de partidos, se refere a eles como forças que servem de instrumento à perpetuação das ditaduras modernas, tanto no sistema capitalista, como no socialismo. Aponta que a luta entre partidos adversários são como as lutas entre tribos e seitas (ao se referir a luta de classes, usa o mesmo argumento), e que estes invariavelmente estão fadados a se corromperem. A luta de um partido é chegar ao poder e na opinião de Kadafi não é justo que um só partido governe uma nação:

 

objetivo de um partido é o de alcançar o poder em nome da execução do seu próprio programa. Não é democraticamente admissível que um partido governe um povo inteiro, porque este é constituído por interesses, opiniões, temperamentos, ideologias ou origens diferentes”

 

Interessante notar como já apontei em artigo anterior a repulsa do socialismo árabe aos conceitos centrais do socialismo cientifico, mesmo respeitando as especificidades socioeconômicas e culturais dos países da região, não se pode deixar de destacar a aversão ao conjunto de paradigmas que sistematizam o pensamento marxista, tanto na versão do socialismo árabe de Michel Aflaq e seu Partido Baath, como na versão kadafista:

 

Todas as sociedades onde as classes se combatem entre si foram, antes disso, sociedades de classe única. Mas essa mesma classe engendrou outras classes, em consequência da evolução inevitável das coisa… Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de por fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de representantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”.

 

A solução para as imposturas do capitalismo liberal e do marxismo seria a realização da democracia direta, deste modo o único meio de se atingir a democracia popular seria por meios dos congressos e comitês populares, já que seria impossível reunir toda população de um Estado-Nação em um só local, através da Terceira Teoria Universal e de forma messiânica, Kadafi anuncia a solução para o problema da democracia: “O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

A ideia é bem simples, o povo se dividiria em congressos de bases, por sua vez os congressos escolheriam um comitê, que formariam congressos populares, o conjunto dos congressos populares formariam comitês administrativos substituiriam o poder centralizado e passariam a gerir os serviços públicos. A cada ano se reuniria o Congresso Geral do Povo, que discutiria os problemas levantados nos diversos congressos e comitês, nas palavras de Kadafi: O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. “Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

É evidente que esse modelo é um meio de democracia representativa sem partidos políticos, no entanto, na prática Kadafi sempre exerceu o poder – em aliança com os diversos chefes tribais – com mão de ferro e sempre procurou alijar possíveis opositores de mecanismos de ausculta popular, se perpetuando no poder por mais de 40 anos. Os avanços econômicos garantiram a popularidade de Kadafi e poucos desafiaram seu regime, a conjuntura começou a mudar a partir da década de 2000 quando se adota medidas liberalizantes, que gera desemprego e por consequência, insatisfação popular. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Continuação do artigo

 

Atrelado as potencias ocidentais o governo de Idris, adota uma postura passiva diante dos conflitos entre os países árabes e Israel, tal comportamento provocou insatisfação, e uma onda de manifestações tomou corpo no país norte africano, o clamor dos manifestantes obrigou o governo a se posicionar favoravelmente ao boicote do petróleo arquitetado pelos países árabes.

 

Os protestos demonstraram o avanço do nacionalismo árabe na Líbia, principalmente nos meios intelectuais e burgueses, entretanto não havia no país, uma sociedade civil organizada ou movimentos políticos capazes de galvanizar as insatisfação popular com o projeto de subordinação aos interesses das grandes potencias do regime de Idris, porém o comportamento do governo criou insatisfações no exercito que naquele momento começava a sofrer grande influencia dos ideais pan-arabistas.

 

A insatisfação se tornou concreta, e um grupo de militares radicalizados, comandados pelo capitão Muammar Kadhafi – na época com 27 anos – aproveitando-se de uma viagem internacional do rei Idris, tomou o poder, em setembro de 1969 sem que ao menos houvesse derramamento de uma gota de sangue, a partir desse momento, sob inspiração do nacionalismo árabe, do socialismo árabe e do Islã surge a Jamairia Árabe Popular Socialista da Líbia.

 

Os militares revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – do país, permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da espoliação promovida pelas potencias ocidentais. A Revolução Líbia foi exitosa no sentido de livrar o país da exploração imperialista e promover certo desenvolvimento socioeconômico, hoje a Líbia é o país africano com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à frente de todos os países dos BRICS, o que não é pouco em se tratando de um país que se livrou do neocolonialismo europeu.

 

A Terceira Teoria Universal

 

Kadafi, enfatizava que a Líbia deveria passar por uma transformação sociocultural, e para sistematizar seu pensamento elaborou a Terceira Teoria Universal (A primeira e a segunda, são o capitalismo liberal e o socialismo cientifico). Em seu Livro Verde (1976), expõe os princípios que norteiam a revolução cultural líbia, indicando que só uma terceira via seria capaz de levar a justiça e a democracia verdadeira aos povos, denunciando deste modo a corrupção das “maquinas de governar” do sistema capitalista e do socialismo marxista, resumindo o sentido de sua “revolução cultural”, afirma:

 

Este LIVRO VERDE apresenta solução teórica definitiva do problema da “máquina de governar”…Nos nossos dias, os regimes políticos, no seu todo, são o resultado da luta travada por essas “máquinas” para alcançar o poder — quer essa luta seja pacífica, quer seja armada, como a luta de classes, de seitas, de tribos ou de partidos ou de indivíduos, ela salda-se sempre pelo sucesso de uma “máquina”, indivíduo, grupo, partido ou classe, e pela derrota do povo, logo, pela derrota da verdadeira democracia.”

 

Para Kadafi a democracia participativa é uma fraude, já que falsificaria o verdadeiro significado da palavra democracia, “o poder do povo”, o parlamentar e seu partido politico, não passariam de um usurpador do poder popular:

 

Quando a assembleia parlamentar é formada, na sequência de um partido nas eleições, ela é a assembleia do partido e não a assembleia do povo – ela representa um partido e não o povo – e o poder executivo detido pela assembleia parlamentar é o poder do partido vencedor e não o poder do povo”.

 

O governante líbio, não aceita a existência de partidos, se refere a eles como forças que servem de instrumento à perpetuação das ditaduras modernas, tanto no sistema capitalista, como no socialismo. Aponta que a luta entre partidos adversários são como as lutas entre tribos e seitas (ao se referir a luta de classes, usa o mesmo argumento), e que estes invariavelmente estão fadados a se corromperem. A luta de um partido é chegar ao poder e na opinião de Kadafi não é justo que um só partido governe uma nação:

 

objetivo de um partido é o de alcançar o poder em nome da execução do seu próprio programa. Não é democraticamente admissível que um partido governe um povo inteiro, porque este é constituído por interesses, opiniões, temperamentos, ideologias ou origens diferentes”

 

Interessante notar como já apontei em artigo anterior a repulsa do socialismo árabe aos conceitos centrais do socialismo cientifico, mesmo respeitando as especificidades socioeconômicas e culturais dos países da região, não se pode deixar de destacar a aversão ao conjunto de paradigmas que sistematizam o pensamento marxista, tanto na versão do socialismo árabe de Michel Aflaq e seu Partido Baath, como na versão kadafista:

 

Todas as sociedades onde as classes se combatem entre si foram, antes disso, sociedades de classe única. Mas essa mesma classe engendrou outras classes, em consequência da evolução inevitável das coisa… Enfim: as tentativas de uniformização da base material da sociedade, com o objetivo de resolver o problema do poder, ou de por fim à luta em proveito de um partido, de uma classe, de uma seita ou de uma tribo, têm falhado do mesmo modo que as tentativas de satisfazer as mesmas pela eleição de representantes, ou pela organização de referendos; continuar nessa via seria perder tempo e ridicularizar o povo”.

 

A solução para as imposturas do capitalismo liberal e do marxismo seria a realização da democracia direta, deste modo o único meio de se atingir a democracia popular seria por meios dos congressos e comitês populares, já que seria impossível reunir toda população de um Estado-Nação em um só local, através da Terceira Teoria Universal e de forma messiânica, Kadafi anuncia a solução para o problema da democracia: “O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

A ideia é bem simples, o povo se dividiria em congressos de bases, por sua vez os congressos escolheriam um comitê, que formariam congressos populares, o conjunto dos congressos populares formariam comitês administrativos substituiriam o poder centralizado e passariam a gerir os serviços públicos. A cada ano se reuniria o Congresso Geral do Povo, que discutiria os problemas levantados nos diversos congressos e comitês, nas palavras de Kadafi: O poder do povo só tem uma face e só se pode realizar o poder democrático de uma maneira: pelos congressos populares e comitês populares. “Não há democracia sem congressos populares” e “comitês populares por toda a parte”.

 

É evidente que esse modelo é um meio de democracia representativa sem partidos políticos, no entanto, na prática Kadafi sempre exerceu o poder – em aliança com os diversos chefes tribais – com mão de ferro e sempre procurou alijar possíveis opositores de mecanismos de ausculta popular, se perpetuando no poder por mais de 40 anos. Os avanços econômicos garantiram a popularidade de Kadafi e poucos desafiaram seu regime, a conjuntura começou a mudar a partir da década de 2000 quando se adota medidas liberalizantes, que gera desemprego e por consequência, insatisfação popular. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Licença Creative Commons
A obra II – A Revolução Líbia, Kadafi no Poder e sua Terceira Teoria Universal de NASCIMENTO, Marcio Moraes foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não-Comercial – Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.

Eleições 2012, Kassab vs PSDB vs PT

18 de março de 2011 Deixe um comentário

Está sacramentado, o Prefeito de SP, Gilberto Kassab está fora do DEM e consigo levará o vice-governador de SP, Afif Domingos, ao partido que fundará em breve (PSD), essa nova configuração promete abalar a polarização PT vs PSDB na cidade e no Estado de SP, seu resultado final é imprevisível, e não se pode afirmar quais dos atuais polos dominantes da politica estadual será mais prejudicado.

Penso que um quadro bem provável para 2012, seria uma candidatura Afif, apoiada pelo atual prefeito, que contaria com um amplo arco de alianças, formado pelo PSD, PMDB, PR, PV, PP, PPS e os neokassabistas, PSB, PCdoB e PDT e outros partidos menos cotados.

Já na seara tucana e petista, há mais incertezas do que convicções: No PSDB, há quem diga que José Serra disputará novamente a prefeitura de SP, particularmente tenho minhas dúvidas, não há nenhum sinal de rompimento entre Serra e Kassab, os dois fazem parte do mesmo projeto e não se enfrentariam de forma alguma, alias não me surpreenderia se Serra desembarcasse no partido de Kassab para poder viabilizar sua terceira candidatura à Presidência da Republica, já que seu inimigo Aécio Neves parecer ser a bola da vez entre demotucanos. Nesse cenário e com a debilidade de quadros do PSDB no município de São Paulo, o governador Alckmin, bancaria a candidatura do deputado federal Gabriel Chalita (PSB) que migraria para o PTB, partido que historicamente orbita em torno do PSDB, o que restar do DEM-SP provavelmente embarcaria na candidatura bancada pelo governador do Estado.

No PT o quadro ainda é mais incerto, fadado ao isolamento político na eleição paulistana, já que os antigos aliados do PCdoB, PSB e PDT se bandearam para nau kassabista, é provável que um dos ministros de Dilma com domicilio eleitoral na cidade de São Paulo, seja o candidato do PT, nesse cenário o nome de Aloizio Mercadante é o mais forte, embora não se possa descartar os nomes de José Eduardo Cardozo e Fernando Haddad, que seriam novidades numa eleição que já se anuncia com muitas dificuldades para o petismo, o problema é que nenhum desses nomes são prestigiados pelas correntes Novos Rumos e PT de Lutas e Massas, que são dominantes no Diretório Municipal do PT, as conversas de bastidores dão conta que o ex-Presidente Lula foi acionado para entrar nas articulações que envolverão a escolha do nome petista. Também não se pode descartar a candidatura da senadora Marta Suplicy, pois tem o apoio das correntes majoritárias do PT paulistano. Acharia interessante uma chapa das ex-prefeitas (Erundina, provavelmente, sairá do PSB, voltando pro PT ou fundando um partido com descontentes do PSB, PDT, PCdoB, PSOL e PT), uma forma de travar um debate que resgaste as duas gestões vitoriosas do PT na cidade, deixando claro as diferenças entre um projeto democrático-popular e o tucano-kassabismo-malufismo.

Bem, isso são apenas conjecturas, o certo é que será uma eleição imprevisível e que resgatará o período em que São Paulo tinha uma tripolarização (quando Maluf tinha força eleitoral em eleições majoritárias), outro ponto certo é que terá implicações nas eleições para governador de São Paulo em 2014, e até mesmo na de Presidente, dependendo do comportamento de José Serra. Como diz o famoso adágio popular:”Quem viver, verá”

Marcio Moraes do Nascimento
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