Algo sério está acontecendo no mundo: A sabedoria de Mr. Dowe
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Impressionante entrevista de um cidadão de Londres à BBC. O relato do Sr. Dowe é retrato fiel de um mundo cada vez mais convulsionado pela crise econômica, pelo racismo, pela intolerância, é a voz daqueles que estão sendo massacrados pelos aparatos da repressão estatal de governos cada vez menos comprometidos com ideais de justiça e igualdade. Sobretudo a juventude das periferias, os negros, os imigrantes são submetidas à esse tratamento que fere todos os princípios dos direitos civis e humanos, isso acontece cotidianamente em todos os cantos do planeta.
Chama a atenção a boçalidade da ancôra do jornal, ao tentar de forma estúpida e espúria criminalizar o entrevistado, é o tipo de tratamento que os arautos do pensamento único quer impor as vozes dissidentes.
O escrito da revolucionária Rosa Luxemburgo que dizia que a ” liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente” continua extremamente atual e deveria servir de lição à mídia, aos governos repressores e à elite branca e xenófoba que abunda na Europa.
No Magreb, na Síria, no Afeganistão, na Somália, nos Estados Unidos, no Chile, na Noruega, na Espanha, na Grécia, no Reino Unido, é verdade Sr. Dowe, algo de muito sério acontece.
Abaixo a entrevista, vale a pena ouvir as palavras desse velho negro imigrante das Índias Ocidentais, como se define o Sr. Dowe.
Gramsci e os Movimentos Sociais
Antonio Gramsci1, assim como Marx, concebia o capitalismo como um modo de produção essencialmente mundializante, argumentando que há sempre um recorte entre o local, o nacional e o mundial. Para Gramsci a internacionalização é articulada e estruturada a partir de dois enfoques interdependentes e interdeterminantes: o fato em si e a visão do fato. O segundo aspecto é o mais relevante, pois esta visão de mundo é que irá determinar a universalidade e a abrangência dessa concepção (de universalidade) de mundo na ordem mundial.
Gramsci assinala um papel central da cultura nesse processo de globalização, o que fica claro com o emprego do conceito de hegemonia.
A hegemonia consiste em uma visão de mundo, sistemática e totalizante, que visa dirigir e abranger todas as classes sociais2. É construída uma visão de dominação que impulsionada pelos meios advindos da industria cultural, tendem a mascarar o conteúdo classista e buscar uma neutralidade que não existe nos acontecimentos.
A questão central em Gramsci se refere à capacidade dos grupos sociais, por meios dos intelectuais, proporem concepções que embora sejam a leitura de uma classe social, possam se tornar universais, superando o particular e o tornando global, permitindo assim o exercício da hegemonia, conforme Gruppi3: “A hegemonia é isso: capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe”4.
Ressalta-se a concepção de poder fundamentado na capacidade de um determinado grupo social, dirigir por meio de um consenso, outro grupo social antagônico, afirmando uma vontade universal a qual o objetivo é implantar um modelo econômico-politico e cultural. Nesse sentido, a classe dominada acabaria por assumir esse discurso que não lhe pertence, que não é próprio da sua classe.
Entretanto para Gramsci, há a possibilidade de uma transformação social, uma reforma ideológico-cultural conduzida pelas classes populares. Este projeto teria como um dos atores principais os intelectuais, que seriam responsáveis pela formulação e publicidade das novas idéias que reformariam a sociedade, criando uma contra-hegemonia. Para Gramsci: “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica e se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo o campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais”5.
“Será ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cultural de uma nação sobre as outras? Ou já estará o mundo de tal modo unificado na sua estrutura econômico-social, que um país, ainda que podendo ter cronologicamente a iniciativa de uma inovação, não pode, porém, conservar o monopólio político e, portanto servir-se de tal monopólio como base de hegemonia? Qual significado que ainda pode ter hoje o nacionalismo? Não será ele possível apenas como imperialismo econômico-financeiro e não mais como primado civil ou hegemonia político intelectual?”6.
Nesta afirmação, Gramsci põe em duvida a capacidade do Estado-Nação em um mundo onde o capitalismo se unifica internacionalmente tanto na seara política como na cultural, relativizando, portanto, o papel do Estado-Nação no cenário da correlação de forças do sistema internacional, Assim Gramsci minimiza o conceito de nação e de imperialismo, embora não os descarte em sua teoria.
Como bom marxista, Gramsci considerava o capital “um organismo em continuo movimento, capaz de absorver toda a sociedade, assimilado-a ao seu nível cultural e econômico”, portanto o capitalismo é apátrida, para ele não há fronteiras, nem particularidades culturais.
A globalização altera o espaço e a correlação de forças nas relações internacionais, com a globalização há uma redefinição do que é soberania e um novo alcance das estruturas de poder que contemplam as transnacionais e as organizações internacionais.
“É preciso levar em consideração que com as relações internas de um Estado-Nação se entrelaçam as relações internacionais, criando novas combinações originais, e historicamente concretas. Uma ideologia, nascida em um país mais desenvolvido, difunde-se em países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combinações”7
Daí podemos concluir8 que muitos movimentos surgidos no âmbito nacional, seriam resultados, ou melhor, construídos a partir de uma lógica internacionalista, sendo produto da luta dos movimentos em nível mundial, pois muitos dos interesses estrangeiros são caracterizados como nacionais para que estes possam ser legitimados localmente.
Em Gramsci, já é concebido o alcance transnacional do capitalismo e que os atores das relações internacionais não estão mais presente apenas num ambiente local, mas interconectam se em ambientes diferentes, condicionando o local (o macro determinando o micro, o mundial determinando o nacional).
Para o autor, as transformações sociais passam pelo advento de novos valores culturais. Uma contra-hegemonia, conduzida pelos intelectuais e pelos movimentos populares, dariam vazão a uma nova visão de mundo e coesão social, permitindo a ação de um bloco histórico que se contraponha ao pensamento hegemônico.
Gramsci atento ao sentido mundializador das questões culturais, alerta para o sentido progressivo de substituição das visões localistas e nacionalistas por outras de cunho cosmopolita, de um poder substancialmente maior, pois essas manifestações estão afinadas com concepções universais e de transformação coletiva do mundo.
Isto é valido não somente para as manifestações de caráter secular, como as de caráter tradicional, como as manifestações religiosas, pois as grandes religiões como o cristianismo e o islamismo superam a visão particularista das religiões nacionais, pois as linguagens mais simples acabam por serem sufocadas pelas abordagens mais complexas.
A tese cosmopolita9 de Gramsci é considerada de suma importância para sua teoria de cultura, visa informar aos lideres dos movimentos internacionalistas que qualquer posicionamento só tem chance de obtenção de sucesso, se forem levados em conta às necessidades da vida e as exigências da cultura dos povos, as lutas nacionais passam a estar submissas a problemática cultural, e esta não pode estar subordinada apenas a política e a luta de classes, preconizando a superação do afastamento entre cultura e povo, entre intelectuais e a massa.
O debate sobre a globalização, lançado pelos movimentos sociais, apresenta hoje o que Gramsci chama de “guerra de posição”10 um embate teórico que afirme e forme gerações, que aprofundem ou desafiem concepções de mundo, é portanto um embate cultural, que visa uma internalização de uma hegemonia, pela capacidade de buscar alternativas e experiências que busquem o convencimento ou não de novas maneiras de enxergar o mundo.
Dentro dos paradigmas gramscianos e refletindo a sociedade atual concebemos que uma ferramenta interessante de criação de uma contra-hegemonia, precisaria, sobretudo, pensar uma estratégia para os aparelhos tecnológicos e de comunicação, como já é praticado por diversos movimentos sociais espalhados pelo mundo.
“Na sociedade moderna, então, não é suficiente ocupar fábricas ou entrar em confronto com o Estado. O que também deve ser contestado é toda a área da “cultura”, definida em seu sentido mais amplo, mais corriqueiro. O poder da classe dominante é espiritual assim como material, e qualquer “contra hegemonia” deve levar sua campanha política até esse domínio, até agora negligenciado, de valores e costumes, hábitos discursivos e práticas rituais”.11.
Portanto os movimentos sociais em seu campo de atuação poderão se utilizar de meios de comunicação de massa, que venham criar mecanismos de contraposição às concepções hegemônicas, podendo assim construir novos saberes e visões políticas contra hegemônicas, e difundi-las à opinião publica mundial. Nesse sentido o intelectual orgânico preconizado por Gramsci seria uma espécie de comunicador ativista dos movimentos sociais, se contrapondo culturalmente aos intelectuais do modelo dominante da globalização neoliberal.
“Os meios de comunicação podem produzir, em termos quantitativos e qualitativos, um universo cultural e informativo superior àquele elaborado de forma natural, espontânea e artesanal. Não obstante, esse processo precisa ser qualificado de modo consciente, como ação das instâncias políticas e técnicas, sob hegemonia da ideologia revolucionária e articulada dialeticamente com os interesses e consciência das massas. Através dos modernos meios de comunicação radicaliza-se a possibilidade das transformações na consciência e na cultura. Portanto, aumenta a possibilidade do sujeito coletivo agir diretamente sobre si mesmo, a partir de suas diferenças internas, contradições e potencialidades daí decorrentes”.12
Nesse aspecto ganha centralidade o já apontado e clássico exemplo do Exercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e sua forte estratégia de usar a Internet como meio de divulgar seu ideário e suas ações, permitindo assim a construção de apoios e alianças na sociedade civil organizada.
Outra questão que apresenta muita relação com as abordagens gramscianas de criação de uma nova hegemonia das classes subalternas, transparece no exemplo do MST, que está formando seus próprios intelectuais.
O movimento dos Sem Terra interage aproximadamente com 1500 escolas em seus assentamentos e seus acampamentos, e idealizou a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) 13 no município de Guararema, interior de São Paulo, tomando para si a educação dos seus militantes e criando novos conceitos pedagógicos, de formação política e cultural.
Portanto no horizonte da globalização é preciso criar novas formas de educação em contraponto a educação tradicional que sofre grande influencia do pensamento dominante neoliberal, pois muitas dessas políticas educacionais são financiadas com dinheiro de organismos como o Banco Mundial, nesse sentido os movimentos sociais apontam a necessidade de barrar a implantação de ações que visam mercantilizar a educação, como propõem os diversos Tratados de Liberalização Comercial (TLC), a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC).
2 Mello, Alex Fiúza de. Gramsci, o capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências sociais.
5 Gramsci, Antonio. “Concepção Dialética da História”, 10ª edição, São Paulo, Civilização Brasileiro, 1995, tradução de Carlos Nelson Coutinho.
6 Gramsci, Antonio. apud Alex Fiúza de Mello. Gramsci, o Capital Supranacional e o novo teorema da política. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol 21, n° 62, pág. 107.
9Coutinho, Liguori, Löwy, Rouanet. O Pensador Hegemônico. Folha de S. Paulo. Caderno Mais!, 21 nov. 1999.
10 Magrone, Eduardo. Gramsci e a Educação: A Renovação de uma Agenda Esquecida. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v26n70/a05v2670.pdf>. Acesso em 09 jun 2007.
12 BETH, Hanno e PROSS, Harry. Introducción a la ciência de la comunicación. Barcelona: Anthropos, 1987.
13 A e escola promove cursos formais e informais voltados para a produção, comércio e gestão dos acampamentos e assentamentos. Além disso, são realizados diversos encontros, seminários e atividades culturais para assentados e acampados, com a participação de mais de 1,8 mil educadores.
Para Maria Gorete Souza, da coordenação político pedagógica da ENFF, esses números apontam para uma importante conquista popular. “Nós conseguimos dar um passo importante no processo de formação da militância do MST e das outras organizações, possibilitando a elevação do nível cultural e de conhecimento para uma melhor atuação e compreensão da realidade que nós vivemos”.
Breves palavras sobre Cleodon Silva e a OSM-SP
Uma das figuras centrais da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP), o Cleodon Silva, faleceu no dia 7 de junho, uma perda e tanto pro sindicalismo e pra todos os lutadores sociais que assim como o Silva, sonharam com um mundo mais justo, onde a solidariedade e o coletivo sobrepujasse os interesses mesquinhos do individualismo e da barbárie do capitalismo que reduz as re
lações humanas à fluidez e a banalidade dos interesses do mercado.
Tive a oportunidade de conversar com o Silva, brevemente, cerca de três vezes, fiquei impressionado com sua calma, a fala pausada, o jeito simples de ser, poucos imaginariam que aquela pessoa com voz tão serena, tenha desafiado os militares, patrões e o sindicalismo pelego na década de 1970 e 1980.
Cabe destacar a importância da OSM-SP, uma das fontes constitutivas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), juntamente com o sindicalismo do ABC, em que pese as diferenças latentes entre as duas vertentes. Na OSM-SP se organizaram diversas correntes da esquerda brasileira, refratárias a linha dos PCs – militantes da POLOP, Democracia Socialista, Convergência Socialista, Libelu, posadistas e diversos outros grupos, além da importante contribuição dos militantes advindos dos setores progressistas da igreja católica sob o norte da Teologia da Libertação desenvolvida à partir do pensamento de José Comblin, Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff entre outros - conhecer a história da OSM-SP que surge na resistência à ditadura militar e contra a estrutura sindical atrelada ao Estado e aos patrões, nos permite entender a linha política das diversas vertentes do sindicalismo brasileiro nas décadas de 60, 70 e 80 do século XX, além de nos propiciar uma melhor compreensão do comportamento político de diversas organizações políticas dos dias atuais, começamos a perceber que certas práticas permanecem até hoje, tanto em setores referenciados na CUT e no PT, seja naqueles que tem como referência a tradição da III Internacional (PCdoB, PCB e MR-8/PPL).
Uma boa alternativa para conhecer um pouco da história da Oposição é o livro Confronto Operário de Maria Rosângela Batistoni (para baixar o livro, clique na imagem da capa logo acima ou para conhecer um pouco mais sobre a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo visite o sítio do Projeto Memória da OSM-SP do IIEP), tive a oportunidade de dar uma pequena contribuição neste livro, fato que me permitiu conhecer mais a história da OSM-SP, e dos seus principais personagens. Uma história de muita luta, de debate político qualificado e de construção de uma visão ímpar do sindicalismo brasileiro. Conviver um pouco com essas pessoas é uma grande experiência pra militância e para a vida, até me imagino com a linda camisa vermelha da chapa 2 (um dia quero ter uma réplica dela), que foi utilizada pelo Luis Carlos Prestes quando este apoiou a oposição, rompendo e denunciando a traição do comitê central do PCB que se aliará com os pelegos capitaneados pelo Joaquinzão.
Voltando ao camarada Silva, antes de falecer estava dedicando-se a formação dos jovens da Casa dos Meninos, portanto é muito provável que o seu legado de militância aguerrida e coerente continue a permear a ação de diversos lutadores sociais na Zona Sul da cidade de São Paulo e no Brasil.
Abaixo posto um vídeo muito interessante, produzido pelo Projeto Memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, onde o Silva conta algumas passagens de sua militância e um pouco do seu pensamento político.
Camarada Silva, PRESENTE!
O Governo Jacobo Arbenz na Guatemala, um exemplo do intervencionismo dos EUA na América Central na década de 1950
A partir do final da década de 1950, no contexto da Guerra Fria, observou-se na América Latina uma crescente ampliação das intervenções do governo dos EUA na política dos países latino americanos. Preocupados com a crescente influencia da esquerda junto aos governos nacionalistas da região, o Governo dos EUA sustentou diversos golpes militares que visavam afastar a ameaça comunista na região, nesse contexto a Agência Central de Inteligência (CIA), teve papel central ao servir como órgão de apoio do governo dos EUA aos setores da elite reacionária da América Latina.
Já em 1954, a CIA protagonizou o golpe de Estado que derrubou o governo progressista de Jacobo Arbenz, na Guatemala, militar nacionalista apoiado pelos comunistas do Partido Guatemalteco dos Trabalhadores1 (PGT). Arbenz chegou ao poder ao vencer as eleições de 1950, quando teve cerca de 65% dos votos.
Historicamente subordinado aos interesses do governo e das empresas estadunidenses, sobretudo a United Company Fruit, multinacional que atuava na produção e comercio de frutas e que exercia grande poder de influencia nos países da América Central com o apoio das oligarquias nativas, dominavam a politica na região, daí a origem da famosa expressão “Republica das Bananas”, para nomear os países centro-americanos.
Já em 1944, a Guatemala após a Revolução de Outubro que deu fim a ditadura do General Ubico passa por um processo de transformações democráticas e anti-imperialistas, segundo Rampirnase2:
“Era uma revolução nacionalista, porque reivindicava para a Guatemala e seu povo a riqueza do país, a qual era subtraída por alguns monopólios estadunidenses, especialmente a United Fruit Company (UFCO), a International Railways of Central América (IRCA) e a Companhia Elétrica da Guatemala. A revolução tentava sair do esquema banana republic e das decisões econômicas de Boston[sede da UFC] que afetavam a maioria da população guatemalteca”.
Ao tomar posse na presidência, Arbenz, promete romper o modelo de dependência econômica, pregando a modernização do capitalismo guatemalteco, processo este que já havia sido iniciado no governo Arévalo, coube ao novo governo aprofundar as transformações, realizando a reforma agraria, a nacionalização das riquezas naturais, expropriação das terras de empresas estadunidenses, entre outras medidas.
A United Fruit Company detinha cerca de 7% do total de terras agricultáveis do país que estavam ociosas, e foi o maior alvo das desapropriações do governo, a multinacional tinha estreitas relações com o governo Eisenhower e, portanto a resposta de Washington veio imediatamente, e começa a ser articulado pela UFC e a CIA um plano para desestabilizar o governo, usando o artificio de classificar o governo como fantoche do comunismo internacional e da URSS.
Se valendo de artifícios como esse os EUA consegue isolar o governo guatemalteco dos demais países da América Central. A partir desse momento um exercito de mercenários treinados pela CIA começa a articular o golpe – foi a primeira intervenção direta da CIA na América Latina – invadindo o país através da fronteira com Honduras sustenta o inicio do golpe de estado, a resistencia foi inócua e logo setores do exercito que supostamente apoiavam lealmente o governo se aliaram aos imperialistas e a oligarquia local, em 27 de junho de 1954 o governo constitucional é derrubado e sob a liderança do Coronel Castillo Armas é instituida uma brutal ditadura que segundo estimativas foi responsavel por 200 mil mortes e desaparecimentos políticos, esse novo governo golpista pró imperialismo, como não poderia deixar de ser, logo foi reconhecido pelos Estados Unidos, de acordo com documento do PGT de 19553:
“O governo dos EUA tentou disfarçar em vão os fatos e ocultar suas responsabilidades de organizador da intervenção, atribuindo ao povo guatemalteco a derrubada do regime democrático eleito por este mesmo povo. A verdade que nosso povo conhece, e cada dia fica mais evidente, é que o golpe contra o legitimo governo de Arbenz é obra dos monopólios ianques, como a United Fruit Company; assim é obra dos EUA”.
Possivelmente, Arbenz e o PGT poderiam conter a ofensiva imperialista, entretanto cometeram erros que inviabilizaram a resistência, como a de confiar demasiadamente nos setores da burguesia nacional, em detrimento da mobilização popular, fazendo uma autocritica o PGT declara no documento de 1955:
“O PGT não estimou corretamente a pouca capacidade de resistência a burguesia nacional e nem sempre levou em conta seu caráter conciliador perante o imperialismo e as classe reacionárias; por isso, ele se iludiu com relação ao patriotismo, à lealdade e à firmeza da burguesia nacional em face das investidas do imperialismo norte-americano”.
Pouco antes do Golpe, o trotskista Ismael Frias criticando o imobilismo do PGT diante a postura moderada da burguesia nacional e o exercito, frente a ameaça imperialista afirma4:
“A única garantia eficaz contra as insurreições reacionárias é democratizar o exercito e armar o povo. Deve-se constituir comitês de classes e soldados para a depuração dos oficiais antidemocráticos e proceder a eleição dos oficiais pela tropa. É preciso armar os operários e trabalhadores do campo, organizando-os em milicias, sob a direção exclusiva dos sindicatos”
A experiencia de Arbenz na Guatemala foi positiva na medida que apontou uma série de caminhos que alguns anos mais tarde inspirarão diversos governos democráticos na América do Sul e Central, no entanto os erros cometidos, sobretudo em relação a exacerbada confiança nos setores democráticos burgueses e no exército e o aspecto geopolítico do momento despertou a contraofensiva dos EUA na sua estratégia de impedir uma possível onda vermelha no continente americano, impedindo assim, um processo de mudanças importantes, que poderia romper com o atraso econômico, politico e social na região.
1A Aliança com setores da burguesia nacional expressa a linha politica adotada pelos Partidos Comunistas ortodoxos
2RAMPINELLI, W.J. O primeiro grande êxito da C.I.A. na América Latina
3Guatemala: a autocrítica dos comunistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais.
4FRIAS, Ismael. Guatemala: a posição dos trotskistas. In: LOWY, M. (org). O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais
Eleições 2012, Kassab vs PSDB vs PT
Está sacramentado, o Prefeito de SP, Gilberto Kassab está fora do DEM e consigo levará o vice-governador de SP, Afif Domingos, ao partido que fundará em breve (PSD), essa nova configuração promete abalar a polarização PT vs PSDB na cidade e no Estado de SP, seu resultado final é imprevisível, e não se pode afirmar quais dos atuais polos dominantes da politica estadual será mais prejudicado.
Penso que um quadro bem provável para 2012, seria uma candidatura Afif, apoiada pelo atual prefeito, que contaria com um amplo arco de alianças, formado pelo PSD, PMDB, PR, PV, PP, PPS e os neokassabistas, PSB, PCdoB e PDT e outros partidos menos cotados.
Já na seara tucana e petista, há mais incertezas do que convicções: No PSDB, há quem diga que José Serra disputará novamente a prefeitura de SP, particularmente tenho minhas dúvidas, não há nenhum sinal de rompimento entre Serra e Kassab, os dois fazem parte do mesmo projeto e não se enfrentariam de forma alguma, alias não me surpreenderia se Serra desembarcasse no partido de Kassab para poder viabilizar sua terceira candidatura à Presidência da Republica, já que seu inimigo Aécio Neves parecer ser a bola da vez entre demotucanos. Nesse cenário e com a debilidade de quadros do PSDB no município de São Paulo, o governador Alckmin, bancaria a candidatura do deputado federal Gabriel Chalita (PSB) que migraria para o PTB, partido que historicamente orbita em torno do PSDB, o que restar do DEM-SP provavelmente embarcaria na candidatura bancada pelo governador do Estado.
No PT o quadro ainda é mais incerto, fadado ao isolamento político na eleição paulistana, já que os antigos aliados do PCdoB, PSB e PDT se bandearam para nau kassabista, é provável que um dos ministros de Dilma com domicilio eleitoral na cidade de São Paulo, seja o candidato do PT, nesse cenário o nome de Aloizio Mercadante é o mais forte, embora não se possa descartar os nomes de José Eduardo Cardozo e Fernando Haddad, que seriam novidades numa eleição que já se anuncia com muitas dificuldades para o petismo, o problema é que nenhum desses nomes são prestigiados pelas correntes Novos Rumos e PT de Lutas e Massas, que são dominantes no Diretório Municipal do PT, as conversas de bastidores dão conta que o ex-Presidente Lula foi acionado para entrar nas articulações que envolverão a escolha do nome petista. Também não se pode descartar a candidatura da senadora Marta Suplicy, pois tem o apoio das correntes majoritárias do PT paulistano. Acharia interessante uma chapa das ex-prefeitas (Erundina, provavelmente, sairá do PSB, voltando pro PT ou fundando um partido com descontentes do PSB, PDT, PCdoB, PSOL e PT), uma forma de travar um debate que resgaste as duas gestões vitoriosas do PT na cidade, deixando claro as diferenças entre um projeto democrático-popular e o tucano-kassabismo-malufismo.
Bem, isso são apenas conjecturas, o certo é que será uma eleição imprevisível e que resgatará o período em que São Paulo tinha uma tripolarização (quando Maluf tinha força eleitoral em eleições majoritárias), outro ponto certo é que terá implicações nas eleições para governador de São Paulo em 2014, e até mesmo na de Presidente, dependendo do comportamento de José Serra. Como diz o famoso adágio popular:”Quem viver, verá”
Marcio Moraes do Nascimento

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